19 de nov. de 2011

A parábola da menina feia

A menina não tinha nome, era " Ela " aos sussurros maldosos, " Ela" no escárnio dos sorrisos plásticos.
Ela era desgovernada, não bastasse o infortúnio da feiúra, não era aluna aplicada, não era sociável o suficiente para ser boba da corte, nem tinha um grande senso de humor. E embora demonstrasse grande domínio retórico, nunca era convidada para bate-papos informais, senão pelos outros que como Ela, eram os inapropriados para convívio. Eles eram também, a maior parte do tempo, seus amigos.
Ela passou pelo ensino fundamental, aos trancos e barrancos, no ensino médio continuou medíocre.
Desgovernada, inconstante, mas tinha talento diziam, para bajular aos outros, a fizeram de macaco de auditório. Ela, tomada pelo arroubo de ter encontrado seu lugar, foi lá, fez o que lhe pediram, e fez além. Mostrou seu potencial, disse-lhes de contos e histórias que não conheciam. E ainda que não esperassem, Ela, a menina feia, desgovernada, imoral e inconstante foi amada, e aplaudida, Alguém amou Ela, mesmo feia, e Alguém deu para Ela um coração em Sol. Então Alguém deu a mão para Ela, e Ela se viu capaz de voar.
E voou, um longo e cansativo vôo, desses que passarinhos de bico curto e asas breves não se arriscam voar. E achou um novo lugar para si. E se apossou desse lugar. Lá Ela não era Ela, lá era Eu e lá Alguém era Estrela, Luz, Nós. 
 Lá não existiam artifícios, mas existia a mim, de cima da pedra mais alta, do topo mais alto do mundo. Eu, que era feia e condenada pelo que nunca dependeu de mim, Eu que superei expectativas, até as minhas, Eu que sou o mundo de Nós.

29 de out. de 2011

Primavera nos dentes

Seu sorriso me provoca,
O que nunca antes sucedeu,
                                 [ Só de lembrar do seu risinho,
                                    o mundo inteiro amanheceu.]
Posso até pedir que fique mais um poquinho,
Mas você é feito bichinho,
                                 [Arredio, que foge pé-ante-pé,
                                                           devagarzinho]

E eu fico com o amor estampado na cara 
Que poesia quando dá no mundo é rara,
E nem todo mundo pode ver.
Mas, quem ler esse poema bobinho,
E entender só um pouquinho
Como o amor cresce e floresce rapidinho,
Entenderá a verdade sobre a primavera,
Que se espalha e toma todos os dentes.

19 de out. de 2011

Sou sua mulher.

Se todo dia abro os olhos e pergunto pro tempo " Até quando? ", e ele me reponde " Acalma-te, criança " sei, e simplesmente sei, pelo Tempo que devo ser paciente, e então quando estou contigo e revelo toda minha paciência e falo pro Tempo " Acalma-te, criança ", e ele feito menino bobo sai esbaforido e me berra de volta " Até quando ? ". 
E então, mesmo que o tempo brinque de cirandas, ainda nos divertimos as custas dele, e ele não nos furta a ternura. Não nos falta compreensão, seu Tempo.
Se todo dia me pergunto se te amo e quanto, e sei pelo não não te amar e nada, que te amo infinitamente. Ou seja, se sei que te amo por contraste racional, por medo de perder todos os dias - quando eu estou longe de voce - são nos dias em que estou contigo que sei que te amo pelo não saber. Sei quase que intuitivamente, pelo deslizar e mãos, pelo beijo enternurado, pela paixão, pelo resgate dos sentimentos primórdios que nos trouxeram até aqui, e mesmo nos dias mais lascivos, pelo meu sexo que é todo coração e pulsa pela sua simples presença.
E então, mesmo que nesta ciranda do tempo nos falte abrigo, ainda poderemos recorrer a nós. E isso é muito mais do que o Tempo sonhou um dia em ter, e nem mesmo ele é capaz de furtar. 

15 de out. de 2011

Imperfeição

Não quisera ser tão misógino, mas por interesses maiores o destino apalpou-lhe os cabelos e interessou-se por ele. Dissertaras sobre o universo, sobre as coisas em que confiava e nas quais acreditava. Esqueceu-se apenas de ser compreensivo e piedoso com o mal. E é esta bondade que lhe cerca as narinas ? Cadê o olfato cheio de suficiência de palavras sonorizadas gramaticalmente corretas e semblantes sobrepostos a oscilações ora rígidas e ora benevolamente simples? 
 Sobre estes passos o julgar do pensamento alheio sobrecai sobre tu, sim. Que esqueceu-se da manhã ensolarada para condenar a noite fria. Não defendo o erro, protesto o julgamento. O seu vácuo não existe por minha culpa. Nem ao menos cheguei ao presponto de perfeição que tentara-lhe muitas vezes, E a credulidade com a qual sempre te vejo aproximar-se, cheio de armas preparadas e postas a fogo, me lembra muitas vezes daquele pressentimento bem apertado ao braço chamado Estrela de Davi. Esquecerei apenas de que a você tudo pertence, no momento em que julga-se tão sóbrio. 
         Obrigada pela indigestão, é frio o não entender.
Rafael Sady.

Sabe, senhora, foi sobre mim. Mas bem que poderia ter sido sobre você.


11 de out. de 2011

II

Bosque solidão, qualquer dia de Outubro.


Amie,


A primeira vez que gostei de você, porque de diversas formas já gostei de você muitas vezes antes de te amar, foi quando estávamos sentadas no meio do mundo inteiro, num momento, e eu te segredei toda dor. Você ouviu, atenciosa, crédula, ouviu e não disse nada sobre o que eu te falava, mas perguntou sobre a guerra. Você quis saber de que lado eu estaria, quando a guerra estivesse.
Honestamente disse que estaria do meu próprio lado. Mas você sabia, assim como eu, que desde então eu já estava do seu lado, ao seu lado. Em parte porque sua ausência me angustiava, e por isso vivia te buscando, como confidente e amiga, numa tentativa de que os laços de confiança te prendessem a mim. 
A primeira vez que te odiei aconteceu mesmo antes de gostar de você, quiçá de conhecê-la. Foi quando, na frente de todos, você riu de mim.E eu te flagrei rindo, e te odiei, porque você - como muitos também riram - me fez sentir pequena e desprotegida, tal como realmente era. 
Você feriu minha casca, e então onde eu me esconderia ? 
Eu me escondi em você. 
Ainda me escondo, ainda sou pequena e desprotegida só. Mas contigo não. 
Contigo eu sou o que você vê, e você vê força, coragem, beleza, volúpia, você vê o que ninguém mais vê. E me segura nessa visão, me captura. Acho que por isso tenho tanta fé em você: ninguém nunca me deixou entrar, ninguém nunca me protegeu - inclusive de mim - ninguém nunca me saciou. 
Você me liberta e me rende.
Me liberta porque deixa que meu Bluebird* saia de mim e viva sua plenitude e liberdade. E me rende porque ele só passeia sob o seu olhar atento. 
Funciona para nós. 
Tem funcionado há um ano, um mês e cinco dias.
O amor certamente não é vermelho como dizem os anúncios do dia dos namorados. E nem é tranquilo e cristalino como em " Monte Castelo " o amor é roxo, talvez vinho. Porque é conturbado, paradoxal, bonito, hipnotizante, turbulento e desejoso, viciante, sensual - e novamente paradoxal - mas certamente não é cristalino, porque é humano. 
E não é perfeito. 
Ainda bem, esse lance de perfeição nunca foi para o meu bico.

                                                                    Amor extremado, entre outros sentimentos tão ou mais bonitos.

21 de ago. de 2011

Dos eventos do prazer

Incrível como os olhos se entregam fácil, acomodando-se à falta de luz. O resto do corpo, porém, não. O resto do corpo é luta feroz, a fim de qualquer migalha de claridade ou lógica. Rumina, resiste, se desprega da alma. Tem vida própria, arrepios corrente, tempestade.     - Álex Leilla











Gozar do canto,
do sorriso feito manto,
que entorna o caldo pronto
faz sentir, feito lamento, derramar
pleno o tormento: ápice do prazer.

O gozo.

Se apropria do momento e faz firme
feito hora : estranho e lento, em cio
juramento, prece, verso, ceia
e por fim o acalanto
do corpo cru

                                                                                                                                                 E ponto.











4 de ago. de 2011

InPerfeita

Crianças tendem a ser muito perversas.

Tinha medo de crianças, quando havia tempo de. Fazia firula para as demais, dava docinhos, fazia as minhas atividades e das minhas colegas, para não ser deixada no canto da sala porque era feia.
Era dessas tipas amareladas, de cabelos metidos em tranças, sapatos pretos de verniz, cabeçudota. Não era bonita de olhar, meus hábitos escusos - comer meleca, preguiça de banho, ranha interminável - não me ajudavam a me enturmar, falavam comigo pelos doces, mas ainda assim me puxavam as tranças.
Só havia uma menina entre todas a que eu podia apontar, a única que fazia de mim superior na cadeia-alimentar-da-sala-de-aula-númerocentoetrês, o nome dela era ( ou é, não sei, faz tanto tanto tempo ) Luzia.
Luzia era pretinha, como diziam minhas colegas, como minha irmã - eu pensava em segredo - e ser pretinho era mau naquela escola, naquele lugar, naquele mundos, naqueles pais daquelas crianças - e digo neles porque se é criança tudo se perdoa, irônico não ? - ser pretinho era como ser sujo, detentor da mais inlavável sujeira, a de ser diferente. Na sala não me atrevia a dirigir o olhar para ela, tinha medo que soubessem que éramos secretamente amigas e então me tratassem mal. Não via sujeira nela, apesar de. Via a boa amiga, e seus cabelos feito manta de lã trançados com esmero, a pele aveludada e aqueles grandes olhos  pretos, tão pretos que pareciam de verniz.
Dia da roda de leitura era aquela lambança alegre e multi-colorida, leões, tatus, fábulas, contos de fadas, de moças, de princesas, de bruxas, todo o imaginário infantil ali pertinho, quase sólido na leitura dos seus criadores - criar é meio isso, né ? Desentender-se do real, brincar de Deus, ou de Big Bang, e dar voz ao que estava calado em si - Luzia estava mais calada que o normal, quis ir até lá e dar-lhe a mão, dizer que estava tudo bem e que brincaríamos de bonecas horas a fio por toda a tarde, contive meu impulso e tamborilando os dedos na cadeirinha amarela, encarava dispersa o semi-arredondado-quadrado. Luzia andou até o quadro, nesse interim e escreveu com letras bem grandes ( para uma garotinha de 8 anos ): INPERFEITA. 
Primeiro a sabe-tudo segredou para a menina do seu lado e então abafou o riso, crianças tendem a ser perversas. Logo começou um burburinho, e então o burburinho antes pequeno foi tomando forma e virou uma feia canção em uníssono. A professorinha, aflita e desgostosa pedia - em vão - o silêncio e a atenção dos demais.
Quando instalou-se o silêncio temeroso, depois de muitíssimas ameaças, Luzia começou a ler, ali, de pé, com lágrimas nos olhos, e os pequenos e frágei braços tremelicando:

Descobrir pra dentro é caminho pra Deus, descobrir o perdoar é caminho para Deus, se eu perdoar a mim por incomodar-vos estarei com Deus. E eu me perdôo, todos os dias por ser assim. IN-Perfeita. Que é perfeita para dentro, e para dentro de mim só Deus. Porque eu já me descobri.


...
























Qualquer verossimilhança, é apenas isso.


Dedicado à Alexandre Bittencourt.

3 de ago. de 2011

I

Bosque do Anjo Solidão, Agosto de um ano qualquer.

Amie,

 Te olhava de longe, Améllie, naquele lugar que me puxava todo o tempo para a realidade, bonita, simples e verde. Mas, como quem não gosta do cheiro que sente, franzia o nariz para a sua arrogância, também para a realidade, Améllie. Nunca fui grande fã dela, você já sabia. E você... Você me inspirava realidade, com todos aqueles questionamentos. Você não respeitava a minha lira e eu pensava, " O demônio é falacioso, Gilda, ela sabe. ", e me incomodava que soubesses das minhas fa...lácias, faltas, fantoches. Me incomodava o seu olhar, Amie, me incomodava que soubesse o que o meu guardava.
 Quando tocou meu rosto, naquele dia gelado, e me falou sabiamente " Mentirosa ", metade de mim sumiu em Dó, a outra metade murchou em Si. Fui revelada, pelos olhos da menina-do-castelo-falido, como deixei isso acontecer ? Te sorri, mesmo mortificada em dor, e peguei sua mão.
- Vamos Dançar!

- Eu não danço, Gilda. - Toquei suas mãos com cuidado, ninguém nunca tinha te tocado assim, eu sabia, e te ofertei meu sorriso mais vermelho. Você ruborizou.
- Dança comigo, eu posso mesmo dançar sozinha, muitas vezes já dancei, mas agora que sabe que minto, não preciso mais mentir, já está tudo acabado mesmo, Amie. Vamos dançar em cima dos cacos da minha máscara. 
- Meninas não podem dançar entre si, Gilda, não seja tola.- Te trouxe mais para perto, penso que foi o tom vacilante da sua voz, meio desejoso daquela dança, que me instigou. 
- Quem disse isso, não sabe de nada, Améllie. 
Lembra ? Lembra, caríssima, de como você sorria, dançando elegantemente aquela valsa - que só nós éramos capazes de ouvir - lembra de como a sua silhueta, as suas roupas, a sua ausência de verdades de aluguel contrastavam como toda a minha indumentária alegórica ?  Sorri, não de desespero, não dessa vez. Você me disse depois, e eu acreditei. Porquê era preciso acreditar, e eu queria.
Por isso também, fiquei nua, à meia luz, num motel barato, dramaticamente deitada, na sua frente, nua em pêlo, exceto pelo batom, esse quem tirou foi você.

                                                Diga que você me quer, porquê eu te quero também.
                                                                                                                                     Gilda.

13 de jul. de 2011

Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu.

Me debrucei novamente sobre a mesa e tentei escrever sobre a crise na Grécia, ou sobre a importância de estudar Marx, ou ainda sobre as teorias de conspirações modernas. Tentei fazer uma resenha sobre o filme que vi ontem no cinema, tentei fazer mais um artigo de opinião que chafurdasse no âmbito social. Mas cada vez que eu toco esse lápis, cada vez que o seguro entre os dedos, daquele jeito torto e feio que você conhece também, é apenas o seu nome que escrevo, e as mesmas histórias piegas e todo esse blablabla apaixonado.
Todas as cartas de amor são ridículas! Penso por um momento. Penso também que devo estar me tornando repetitiva e obtusa - como você gosta dessa palavra - e que isso deve soar tão chato e fake.
Tanto já mudou desde o dia 6, concluo. Foi há pouco menos que um ano atrás, e você permanece aqui invadindo meus pensamentos, desviando o foco de todo o mais. Quem define o limiar entre romance sadio e romance obsessivo compulsivo ? Como saber quando se passa do ponto, quando já não se pode mais questionar o avassalador que adjetiva todo e qualquer sentimento que se apresenta junto a ti ? Intenso.
Mas você e eu podemos namorar, e era simples. Ficamos fortes. Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu.
Podia ser só um bom sexo, ou ainda só um bom papo, só uma boa companhia em domingos chuvosos, mas nunca fomos realmente boas em nada " só ", sempre foi um bom sexo precedido de um bom papo no aconchego de um domingo chuvoso.
Podíamos buscar sentido em tudo, mas decidimos que foi o destino, ou aquele sorriso na aula de Biologia, talvez ainda tivesse sido o cheiro na pele, aquele que te agradava.
E agora eu me pego mais uma vez falando sobre como eu me lembro de te ver sorrir, no escuro do cinema, primeiro tímida, depois nervosa, e então você puxou a minha mão para junto do seu peito, me mostrou o pulso, me entregou a senha, a verdade, e por isso um útimo segundo eu vacilei. Foi uma equação rápida, nunca fui boa em matemática, mas fiz o cálculo direitinho: x + y = 0, isola y,  x + x = 1. Me apaixonei por você ali, naquelas batidas ansiosas do teu coração.
E não me arrependo nem por um segundo sequer.

2 de jun. de 2011

All I need

Um, dois, três, quatro sonhos.
Muitos planos, pano nenhum,
Só corpos mundanos
Insaciáveis.

Lascívia a fora, cama a dentro,
No ventre o cheiro cerne
Na mão a taça carne

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !