13 de out de 2012

Epitáfio.

Caminhar em um cemitério é como dormir sem descansar, não tem paz alguma. O ambiente silencioso, as flores reminiscentes de coroas muitas, caídas no chão, ou simplesmente apodrecidas no túmulo, roubam a paz dos caminhos. Para não falar dos mortos, enterrados sem possibilidade de retorno. Os mortos lembram os meus, com pesar.
Sempre tem túmulos frescos e novas covas. As inscrições eram variadas, desde " amor de irmão " até " tempo perdido ", revisitar o meu cemitério nunca é fácil.
É lembrar dos sonhos que morreram no caminho até aqui, e alguns eram tão joviais que nem deveriam ter sido brutalmente assassinados. É lembrar dos afetos que morreram de tempo ou de jeito. É lembrar sobre tudo das expectativas mortas, que me cravaram o peito de decepções. É lembrar de toda angústia jovem de vinte anos, e certamente é me deparar comigo mesma, um dia, junto a tudo que já perdi.
Méritos também foram enterrados lá, e monstros, e o meu peixinho dourado. O meu peixinho dourado jaz na cripta mais imponente, ao lado de Megan, a gata. Ora que ironia. Ambos mortos pela mesma pessoa, dezenas de vezes.
E em uma última cripta, de mármore branco e arabescos : Gilda. Aquela que me deu a possibilidade de vir a tona com meus próprios pés. E braços e desbravar abraços e enlaços, Gilda que me ensinou a ir sendo, Gilda tão arraigada em mim e que agora se despede me provocando um sorriso. Você vai me fazer falta, mas eu vou te fazer viva, eu prometo.
Pegar uma flor no chão do cemitério. Fazer um pedido. Ir embora.


Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !