28 de mai de 2014

Agô


  • Quando eu nasci anjo nenhum,
  • Me recebeu um Exu retinto, que dançava na chuva
  • Anunciara a bonança, era mulher de boceta e resto
  • Nanã lhe espiava a dança, chovia feito o choro
  • Da esfomeada criança, sabia-se filha de Iansã,
  • Que a arvorava a liderança e os ventos de mudança,
  • Bandeira nenhuma carregaria, sem a Padilha abre-caminhos de herança,
  • Certamente, saberiam, os louvores da tal criança.
  • Não iria casar, senão com a revolução,
  • Subvertia o matrimônio, o afeto dos díspares era sua aliança
  • A justiça o seu Estado e a Fé sua nação,
  • Não era feia, nem bonita, era toda senão,
  • Isso tampouco lhe importava, valia mais o coração,
  • Que é coisa vermelha e pulsa, feito uma exclamação
  • Que batucava feito samba, e no terreiro nunca lhe faltou chão,
  • Para amar mulher que luta há em Iansã mais comoção.
  • Mulher é, verbo de criação, eu sou.

23 de mai de 2014

Asperidão

O que arde em mim e o que move em mim
São mais de mim 
Que o limite da sua fala traduz
O que move em mim e o que peca em mim
São mais de luz
Que anjo, prece ou cruz
O que peca em mim e o que goza em mim
São mais de fio
Que a fina faca afiada pela língua faz jus 
O que goza em mim e o que de mim em mim se faz
Nem limite, nem luz, nem fio, nem faca, nem cruz. 

10 de mai de 2014

Mais Maria que Madalena

E aí me dá uma vontade louca de alisar o cabelo ir na missa crismar casar de branco ter dois filhos muito machos por favor e ainda uma casa financiada em mil vezes num condomínio de alto padrão carro do ano sedam prateado e trocar o celular férias na disneilândia renovar votos de frente pro mar deixar que alguém me defina escolha por mim e tudo isso dura o minuto inteiro e roxa roxa quase sem ar percebo que: é só preguiça de sonhar, levantar, alçar vôo, que ser de vanguarda também cansa e a gente é gente e viver assim é cômodo. 

O masoquista e o fugitivo

[Para ler ouvindo]

Estava escolhendo limão, para fazer uma torta, a música no fundo melodiosa dizia que a gente que escolhe sorrir, ri, era escárnio, não graça, e que a gente escolhe chorar. Onde já se viu, escolher riso ou pranto feito se escolhe...limão!Aquele cheiro de hortifrúti mamão manga laranja lima limão maçã me botavam enjoada como o diabo, mal sentia além da música e a voz meio chorosa da Vanessa da Mata, há certa hora do dia em que mal sinto as minhas extremidades, ando como alguém que fumou um baseado, eu? Fumei não! Nunquinha meu senhor! Como poderia saber? Então, parecia que flutuava entre as prateleiras coloridas, e aquelas vozes femininas e toda aquela paz, toda aquela naturalidade naquele varejeiro mil vezes no cartão batata alface feijão, já não havia música, nem vozes, nem mercado, era eu e eu e eu e eu. Ondas de mim invadiam tudo e derrubavam tudo e nada mais fazia sentido algum. Até que uma velha voz me3 chamou pelo nome e a velha cefaleia, o velho cansaço nas pernas, a dor de coluna,  Oi? Vamos sim. Para onde? Para o caixa, é claro. É claro. É claro.

Não é.

8 de mai de 2014

Flor de Laís

Fito a Ela e 
Ali, L(a)is, bela, 
Me devolve um olhar.
Fita no cabelo dela, 
Faz o mundo 
Re-decorar. 
Cora quando sentinela,
Sente dela o perfumar, 
Linda flor, flor amarela, 
Lá está o meu olhar.
Posa de bossa e jazz
E rock e cor e luz
Se tudo Laís tivesse
Quando tudo ela quisesse
Talvez fosse menos Blues.

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !