4 de ago de 2011

InPerfeita

Crianças tendem a ser muito perversas.

Tinha medo de crianças, quando havia tempo de. Fazia firula para as demais, dava docinhos, fazia as minhas atividades e das minhas colegas, para não ser deixada no canto da sala porque era feia.
Era dessas tipas amareladas, de cabelos metidos em tranças, sapatos pretos de verniz, cabeçudota. Não era bonita de olhar, meus hábitos escusos - comer meleca, preguiça de banho, ranha interminável - não me ajudavam a me enturmar, falavam comigo pelos doces, mas ainda assim me puxavam as tranças.
Só havia uma menina entre todas a que eu podia apontar, a única que fazia de mim superior na cadeia-alimentar-da-sala-de-aula-númerocentoetrês, o nome dela era ( ou é, não sei, faz tanto tanto tempo ) Luzia.
Luzia era pretinha, como diziam minhas colegas, como minha irmã - eu pensava em segredo - e ser pretinho era mau naquela escola, naquele lugar, naquele mundos, naqueles pais daquelas crianças - e digo neles porque se é criança tudo se perdoa, irônico não ? - ser pretinho era como ser sujo, detentor da mais inlavável sujeira, a de ser diferente. Na sala não me atrevia a dirigir o olhar para ela, tinha medo que soubessem que éramos secretamente amigas e então me tratassem mal. Não via sujeira nela, apesar de. Via a boa amiga, e seus cabelos feito manta de lã trançados com esmero, a pele aveludada e aqueles grandes olhos  pretos, tão pretos que pareciam de verniz.
Dia da roda de leitura era aquela lambança alegre e multi-colorida, leões, tatus, fábulas, contos de fadas, de moças, de princesas, de bruxas, todo o imaginário infantil ali pertinho, quase sólido na leitura dos seus criadores - criar é meio isso, né ? Desentender-se do real, brincar de Deus, ou de Big Bang, e dar voz ao que estava calado em si - Luzia estava mais calada que o normal, quis ir até lá e dar-lhe a mão, dizer que estava tudo bem e que brincaríamos de bonecas horas a fio por toda a tarde, contive meu impulso e tamborilando os dedos na cadeirinha amarela, encarava dispersa o semi-arredondado-quadrado. Luzia andou até o quadro, nesse interim e escreveu com letras bem grandes ( para uma garotinha de 8 anos ): INPERFEITA. 
Primeiro a sabe-tudo segredou para a menina do seu lado e então abafou o riso, crianças tendem a ser perversas. Logo começou um burburinho, e então o burburinho antes pequeno foi tomando forma e virou uma feia canção em uníssono. A professorinha, aflita e desgostosa pedia - em vão - o silêncio e a atenção dos demais.
Quando instalou-se o silêncio temeroso, depois de muitíssimas ameaças, Luzia começou a ler, ali, de pé, com lágrimas nos olhos, e os pequenos e frágei braços tremelicando:

Descobrir pra dentro é caminho pra Deus, descobrir o perdoar é caminho para Deus, se eu perdoar a mim por incomodar-vos estarei com Deus. E eu me perdôo, todos os dias por ser assim. IN-Perfeita. Que é perfeita para dentro, e para dentro de mim só Deus. Porque eu já me descobri.


...
























Qualquer verossimilhança, é apenas isso.


Dedicado à Alexandre Bittencourt.

6 comentários:

  1. Você me arrepia numa alma lírica-literária que eu já nem lembrava existir.

    PS: Vai ver Xandy para de me chamar de preta agora. (e VOCÊ. cão dosinferno.)

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  2. Não vou parar de te chamar de preta nunca, tenho inveja de ser amarela-coalhada, você sabe.

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  3. Lindo. Só quem viveu sob a esfera de alvo sabe o que é isso. E a perversidão não é uma tendência infantil. O que as crianças não fazem antes de se tornarem adultas é mascarar e esconder o que sentem/pensam. Reflita.

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  4. Nossa que lindo, parabéns pelo texto, tocou minha alma....

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  5. cada dia você escreve melhor, Simplesmente é para ler,degustar e refletir!

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