21 de ago de 2010

GILDA II

Todos somos naturalmente pudicos. Por isso saímos para dançar à noite, como se não fosse deste meio, Gilda dançava ao meio dia, trajando preto da cabeça aos pés, sob o sol que despontava o fim do inverno. Gilda só existia em função do choque das mocinhas, das patroas, das empregadas, das infames e das hipócritas. Chocava a todas, com prazer, é claro .
Não dançava vulgarmente, como se poderia supor, nem era ballet clássico, tendo ares de louca.
Dançava bolero.
E dançava sozinha.
Há muito Gilda não sabia o que era dançar junto, mesmo quando junto, estava sozinha. Era sabido que nascera para a solidão, sendo dela filha única. Espiou por um momento por sobre o ombro, avistou o mesmo rapaz Johnny, o mesmo Johnny da biblioteca, eram tantos Johnnys e tantas Gildas que considerou por um momento antes de render-se e com um maneio de mão e dos lábios rubros chamá-lo para dançar.
Não sorriu, nem disse "Oi", apenas estendeu a mão e pontuou, esclarecendo o que não pertencia a claridade:
- Estou esperando meu príncipe. - Hesitou, por um instante e tendo as mãos do moço Johnny nas suas, pôs-se outra vez a dançar, com ele.
Agoram eram dois no contraste da realidade, eram dois e não uma só, eram dois, eram um alívio. Eram três, no por fim. Eram três porque o pudor alheio não os abandonara, eram três e Gildas eram mil, bem como Johnnys, quantos eram afinal ?

4 comentários:

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !