13 de ago de 2015

Dor crônica.

Me aproximei daquele grupo heterogêneo de garotas e pedi-lhes um isqueiro. A garota que me estendeu o isqueiro tinha, certamente, menos de dezoito anos. Ávida pelo cigarro, me poupei dos questionamentos morais. A observei por instantes, era muito bonita, os enormes lábios pintados de roxo e o esmero na maquiagem denunciavam certa vaidade, embora tenha ponderado que ela não soubesse ou considerasse sua beleza, uma vez que esta fugia aos padrões, estava absolutamente imersa em pensamentos enquanto tentava em vão no vento acender meu cigarro quando fui trazida a tona brutalmente pela voz estridente e púbere de uma das garotas: deixa para lá, beija outra também, na frente dela, para ela ver como é bom.
Sorri em agradecimento, cigarro aceso, metido nos lábios, a conversa me tragou para um sem fim de lembranças. Fiquei ali, estagnada, ridícula, fora de lógica. Apenas olhando para a garota na minha frente. Pensei em dizer-lhe um sem fim de frases motivacionais. Calei. Ela respondia a amiga com um estridente e semitonado: Eu não sou assim.
Sorri, sabia entrementes sobre isto que era não ser assim.
Um silêncio se abateu sobre o ridículo da minha presença destoante. Agradeci e me afastei, com o cigarro aceso, um pouco embriagada e sozinha.


Dor crônica II

De todas as mulheres que já amei e deixei, ou perdi, você - justo você - é a única de quem não pude me despedir sambando. Você grafa o nome dessa dor lascinante que me rouba os sorrisos no meio do dia para nunca mais.
Justo você, aquela com quem nunca trepei, aquela cujo os lábios jamais beijei.
Aquela de quem nunca pude superar a perda. Perder você foi como quando eu me senti abandonda por Deus. E foi e é irreparável.
Mas hoje, por qualquer alinhamento planetário inexplicável, hoje e não nenhum outro dia, eu desejei que você jamais tivesse existido.
Quis talvez voltar no tempo e apagar o dia em que te dei o "Bom dia" que mudou tudo.
Quis jamais ter conhecido cada sorriso e cada lágrima e todos os motivos.
Só para nunca mais doer de novo essa dor de não mais tê-la.
Você que amei tanto e quase nada pedi em troca. Você que amei como só se aman as coisas que nos são misteriosas.
Você, esta que eu jamais quis ter amado.
Para jamais ter podido perder.
E então hoje, pela primeira vez pude entendersentir a Travessia.
Quando você foi embora fez-se noite o meu viver.

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