3 de ago. de 2011

I

Bosque do Anjo Solidão, Agosto de um ano qualquer.

Amie,

 Te olhava de longe, Améllie, naquele lugar que me puxava todo o tempo para a realidade, bonita, simples e verde. Mas, como quem não gosta do cheiro que sente, franzia o nariz para a sua arrogância, também para a realidade, Améllie. Nunca fui grande fã dela, você já sabia. E você... Você me inspirava realidade, com todos aqueles questionamentos. Você não respeitava a minha lira e eu pensava, " O demônio é falacioso, Gilda, ela sabe. ", e me incomodava que soubesses das minhas fa...lácias, faltas, fantoches. Me incomodava o seu olhar, Amie, me incomodava que soubesse o que o meu guardava.
 Quando tocou meu rosto, naquele dia gelado, e me falou sabiamente " Mentirosa ", metade de mim sumiu em Dó, a outra metade murchou em Si. Fui revelada, pelos olhos da menina-do-castelo-falido, como deixei isso acontecer ? Te sorri, mesmo mortificada em dor, e peguei sua mão.
- Vamos Dançar!

- Eu não danço, Gilda. - Toquei suas mãos com cuidado, ninguém nunca tinha te tocado assim, eu sabia, e te ofertei meu sorriso mais vermelho. Você ruborizou.
- Dança comigo, eu posso mesmo dançar sozinha, muitas vezes já dancei, mas agora que sabe que minto, não preciso mais mentir, já está tudo acabado mesmo, Amie. Vamos dançar em cima dos cacos da minha máscara. 
- Meninas não podem dançar entre si, Gilda, não seja tola.- Te trouxe mais para perto, penso que foi o tom vacilante da sua voz, meio desejoso daquela dança, que me instigou. 
- Quem disse isso, não sabe de nada, Améllie. 
Lembra ? Lembra, caríssima, de como você sorria, dançando elegantemente aquela valsa - que só nós éramos capazes de ouvir - lembra de como a sua silhueta, as suas roupas, a sua ausência de verdades de aluguel contrastavam como toda a minha indumentária alegórica ?  Sorri, não de desespero, não dessa vez. Você me disse depois, e eu acreditei. Porquê era preciso acreditar, e eu queria.
Por isso também, fiquei nua, à meia luz, num motel barato, dramaticamente deitada, na sua frente, nua em pêlo, exceto pelo batom, esse quem tirou foi você.

                                                Diga que você me quer, porquê eu te quero também.
                                                                                                                                     Gilda.

13 de jul. de 2011

Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu.

Me debrucei novamente sobre a mesa e tentei escrever sobre a crise na Grécia, ou sobre a importância de estudar Marx, ou ainda sobre as teorias de conspirações modernas. Tentei fazer uma resenha sobre o filme que vi ontem no cinema, tentei fazer mais um artigo de opinião que chafurdasse no âmbito social. Mas cada vez que eu toco esse lápis, cada vez que o seguro entre os dedos, daquele jeito torto e feio que você conhece também, é apenas o seu nome que escrevo, e as mesmas histórias piegas e todo esse blablabla apaixonado.
Todas as cartas de amor são ridículas! Penso por um momento. Penso também que devo estar me tornando repetitiva e obtusa - como você gosta dessa palavra - e que isso deve soar tão chato e fake.
Tanto já mudou desde o dia 6, concluo. Foi há pouco menos que um ano atrás, e você permanece aqui invadindo meus pensamentos, desviando o foco de todo o mais. Quem define o limiar entre romance sadio e romance obsessivo compulsivo ? Como saber quando se passa do ponto, quando já não se pode mais questionar o avassalador que adjetiva todo e qualquer sentimento que se apresenta junto a ti ? Intenso.
Mas você e eu podemos namorar, e era simples. Ficamos fortes. Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu.
Podia ser só um bom sexo, ou ainda só um bom papo, só uma boa companhia em domingos chuvosos, mas nunca fomos realmente boas em nada " só ", sempre foi um bom sexo precedido de um bom papo no aconchego de um domingo chuvoso.
Podíamos buscar sentido em tudo, mas decidimos que foi o destino, ou aquele sorriso na aula de Biologia, talvez ainda tivesse sido o cheiro na pele, aquele que te agradava.
E agora eu me pego mais uma vez falando sobre como eu me lembro de te ver sorrir, no escuro do cinema, primeiro tímida, depois nervosa, e então você puxou a minha mão para junto do seu peito, me mostrou o pulso, me entregou a senha, a verdade, e por isso um útimo segundo eu vacilei. Foi uma equação rápida, nunca fui boa em matemática, mas fiz o cálculo direitinho: x + y = 0, isola y,  x + x = 1. Me apaixonei por você ali, naquelas batidas ansiosas do teu coração.
E não me arrependo nem por um segundo sequer.

2 de jun. de 2011

All I need

Um, dois, três, quatro sonhos.
Muitos planos, pano nenhum,
Só corpos mundanos
Insaciáveis.

Lascívia a fora, cama a dentro,
No ventre o cheiro cerne
Na mão a taça carne

24 de mai. de 2011

Ao mar, amar. Amor...

Sim. Repeti frente a imensidão fria e silenciosa do mar. Sim.
Começou numa manhã de sexta-feira nublada, condições atípicas para começar um romance. Começou com uma troca de olhares, e medo, e uma mensagem no celular, começou impessoal. Começou numa sexta-feira poucas horas antes de uma viagem importante, numa noite fria e adornada. Diga que você me quer, porque eu te quero também. Começou com um abraço, com um carinho, começou com a sua cabeça pousada no meu ombro, e seus lábios perto, não o bastante.
Mergulhei. Mergulhei num paradoxo. Mergulhei numa superfície gelada para me deparar com um fundo quente, escaldante. Mergulhei para me saber pertencente ao mar. Submergi.

20 de mai. de 2011

Existe razão na loucura,

Frente ao mistério do eu,
Do ego, do self, concretizo
Incertezas lúcidas
De um porém humano:
Somos todos iguais
Nas medidas das nossas
[in]Diferenças.
Somos todos reais,
na medida das nossas crenças.
Somos todos banais,
Veja só como a maioria pensa.
Somos todos e todos mais.
E só isso é que conpensa.



Existe loucura na razão.

23 de abr. de 2011

Margaridas não tem espinhos, não.

Deixa disso e vem ser feliz comigo,vem pro seu lugar no mundo, esquece tudo e fica com o que te faz bem.Me escolhe,escolhe a tua paz,os nossos sonhos. Eu te amo,vida. Amo mais que qualquer outra coisa, e te quero, tanto tanto, você tem um efeito tão avassalador em mim. Ontem, só de estar perto assim, quando você fazia que ia me beijar e não beijava, só de sentir a sua respiração na minha, meu coração disparava, apertava, martelava, me lembrando o quanto, quanto meu corpo clama por você, te grita, te quer. Me lembrando o quanto estar contigo me faz bem, como eu fico feliz de ter sua mão na minha, como eu preciso sempre sentir seu toque. E se for pecado, se for errado, eu renuncio meu lugar no céu. Você é o meu céu, você é o meu paraíso.

Disparo contra o sol, sou forte,

Sou por acaso, minha metralhadora cheia de mágoas.

Gira, volta, dois passos pra esquerda, maneia cabeça, espalha os cabelos pelo ar. O ar quase sólido ao nosso redor fede a mágoa. Um olfato mais apurado apontaria umas notas de mentiras e outras notas de corpo de inveja.
Seu vestido não brilha mais, teria lhe dito se me perguntasse. O viço e a bondade nos seus olhos, eu também não vejo mais. Reclinou-se nos braços da outra dama, sorriu... Pra ninguém. Se me perguntasse eu lhe diria que as suas mentiras te assassinaram. Como não me perguntou nada, apenas aplaudi, sempre aplaudo.

19 de abr. de 2011

Heart Shaped Glasses

O reflexo no espelho me enoja, os cortes, as marcas, as repugnantes marcas fundas, o inchaço, os arranhões. As grandes manchas de sangue que desnaturam meu rosto, a palidez, meu rosto tão partido quanto meu coração.  Tão partido quando aquele porta retrato.

Para ler sentindo.

Luz Negra

Trajava preto, não por hábito, por luto.
Os cabelos, já não tão curtos, a postura já não tão aviltante.
Andou, firme, entre os tantos que apinhavam o salão, entre o burburinho e os brindes, esbarrou num estranho-sem-rosto, mas não desculpou-se, seguiu. Prostrou-se frente ao bar, pediu um Whisky, duplo " muito gelo e dois dedos d'água ", aprendeu num filme. Ao fundo Maysa cantava. Se o meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar. O cheiro da bebida impregnou-lhe o corpo, sorriu. Uma lembrança invadiu-lhe, uma dessas tantas lembranças odiosas que insistiam em vir sempre, corroer-lhe. " Esse bailes são tão entediantes! " deslizou os dedos pelo balcão, o cheiro da bebida, misturado com a madeira excessivamente polida, trouxe um sorriso a tona. O reflexo no espelho, difuso entre as bebidas dispostas em prateleiras, as luzes amareladas do salão, toda aquela conversa-sorridente, o encarar dos olhos com o reflexo que era meu personagem, meu eu tão lírico, fez-me em abismo. " Não posso borrar minha macro-imagem, minha maquilagem ." " Mais um duplo, por favor " " Bebida forte, dona " " Espero fazer dela, minha " " Saúde, isso é bebida de macho, hein dona ? " " De repente é isso mesmo. " Engoliu tudo, de um só gole, arrumou o vestido, foi-se, estalando os saltos altíssimos pelo salão. Eu fiquei, ali, parada na porta, vendo Gilda tomar meu lugar.

1 de abr. de 2011

Te valorizo.

Acordar cedinho e te ver, ali, imóvel, dormindo.Colocar no rádio o som daquela banda que você gosta, pra te ver acordar feliz. Ter o seu primeiro sorriso, o segundo e o último quando o dia se for. Poder tocar livremente cada pedacinho do seu, meu, corpo. Cuidar de você, te preparar um chá. Tocar seus cabelos, te contar um segredo, ou uma história, dormir de novo e acordar de novo. No seu abraço, sentir sua temperatura crua, no laço das suas pernas, no espelho de mim, que és. Mas é certo que de madrugada, enquanto me furto o sono pelo ávido desejo da presença, da lembrança, faz-se em verso a minha existência, lira pura nos teus lábios, que ao amanhecer sonolento se refaz em canto, no sono ou no momento insone embalado nos seus braços, a tarde chega, assim, e ainda está aqui o som das tuas risadas, me acompanhando, e sua voz que pela noite embala meu sono, meus sonhos, me puxa também pra realidade. Desligo o som do meu rádio, o silêncio me traga e me perco no tempo num texto qualquer, e pouso. Espero que entenda e volte pra cá.

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !