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11 de out. de 2011

II

Bosque solidão, qualquer dia de Outubro.


Amie,


A primeira vez que gostei de você, porque de diversas formas já gostei de você muitas vezes antes de te amar, foi quando estávamos sentadas no meio do mundo inteiro, num momento, e eu te segredei toda dor. Você ouviu, atenciosa, crédula, ouviu e não disse nada sobre o que eu te falava, mas perguntou sobre a guerra. Você quis saber de que lado eu estaria, quando a guerra estivesse.
Honestamente disse que estaria do meu próprio lado. Mas você sabia, assim como eu, que desde então eu já estava do seu lado, ao seu lado. Em parte porque sua ausência me angustiava, e por isso vivia te buscando, como confidente e amiga, numa tentativa de que os laços de confiança te prendessem a mim. 
A primeira vez que te odiei aconteceu mesmo antes de gostar de você, quiçá de conhecê-la. Foi quando, na frente de todos, você riu de mim.E eu te flagrei rindo, e te odiei, porque você - como muitos também riram - me fez sentir pequena e desprotegida, tal como realmente era. 
Você feriu minha casca, e então onde eu me esconderia ? 
Eu me escondi em você. 
Ainda me escondo, ainda sou pequena e desprotegida só. Mas contigo não. 
Contigo eu sou o que você vê, e você vê força, coragem, beleza, volúpia, você vê o que ninguém mais vê. E me segura nessa visão, me captura. Acho que por isso tenho tanta fé em você: ninguém nunca me deixou entrar, ninguém nunca me protegeu - inclusive de mim - ninguém nunca me saciou. 
Você me liberta e me rende.
Me liberta porque deixa que meu Bluebird* saia de mim e viva sua plenitude e liberdade. E me rende porque ele só passeia sob o seu olhar atento. 
Funciona para nós. 
Tem funcionado há um ano, um mês e cinco dias.
O amor certamente não é vermelho como dizem os anúncios do dia dos namorados. E nem é tranquilo e cristalino como em " Monte Castelo " o amor é roxo, talvez vinho. Porque é conturbado, paradoxal, bonito, hipnotizante, turbulento e desejoso, viciante, sensual - e novamente paradoxal - mas certamente não é cristalino, porque é humano. 
E não é perfeito. 
Ainda bem, esse lance de perfeição nunca foi para o meu bico.

                                                                    Amor extremado, entre outros sentimentos tão ou mais bonitos.

3 de ago. de 2011

I

Bosque do Anjo Solidão, Agosto de um ano qualquer.

Amie,

 Te olhava de longe, Améllie, naquele lugar que me puxava todo o tempo para a realidade, bonita, simples e verde. Mas, como quem não gosta do cheiro que sente, franzia o nariz para a sua arrogância, também para a realidade, Améllie. Nunca fui grande fã dela, você já sabia. E você... Você me inspirava realidade, com todos aqueles questionamentos. Você não respeitava a minha lira e eu pensava, " O demônio é falacioso, Gilda, ela sabe. ", e me incomodava que soubesses das minhas fa...lácias, faltas, fantoches. Me incomodava o seu olhar, Amie, me incomodava que soubesse o que o meu guardava.
 Quando tocou meu rosto, naquele dia gelado, e me falou sabiamente " Mentirosa ", metade de mim sumiu em Dó, a outra metade murchou em Si. Fui revelada, pelos olhos da menina-do-castelo-falido, como deixei isso acontecer ? Te sorri, mesmo mortificada em dor, e peguei sua mão.
- Vamos Dançar!

- Eu não danço, Gilda. - Toquei suas mãos com cuidado, ninguém nunca tinha te tocado assim, eu sabia, e te ofertei meu sorriso mais vermelho. Você ruborizou.
- Dança comigo, eu posso mesmo dançar sozinha, muitas vezes já dancei, mas agora que sabe que minto, não preciso mais mentir, já está tudo acabado mesmo, Amie. Vamos dançar em cima dos cacos da minha máscara. 
- Meninas não podem dançar entre si, Gilda, não seja tola.- Te trouxe mais para perto, penso que foi o tom vacilante da sua voz, meio desejoso daquela dança, que me instigou. 
- Quem disse isso, não sabe de nada, Améllie. 
Lembra ? Lembra, caríssima, de como você sorria, dançando elegantemente aquela valsa - que só nós éramos capazes de ouvir - lembra de como a sua silhueta, as suas roupas, a sua ausência de verdades de aluguel contrastavam como toda a minha indumentária alegórica ?  Sorri, não de desespero, não dessa vez. Você me disse depois, e eu acreditei. Porquê era preciso acreditar, e eu queria.
Por isso também, fiquei nua, à meia luz, num motel barato, dramaticamente deitada, na sua frente, nua em pêlo, exceto pelo batom, esse quem tirou foi você.

                                                Diga que você me quer, porquê eu te quero também.
                                                                                                                                     Gilda.

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !