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11 de dez. de 2010

Senhas

O mundo está sempre inventando novos artifícios para inibir as diferenças, essa marcha mórbida e progressiva pela massificação só gera estigmas, estereótipos e atentados contra a liberdade de expressão. Não pensem que vocês, todos iguais, normais-homogêneos são especiais, não! Vocês seguem a risca o papel que lhes foi concedido. Sabe o que vocês são ? Fan-to-ches. Pérfidos com sua crueldade, negligência e preconceito. E sabe do que mais ? Não importa se vocês me aplaudem, ou não. Vocês me vêem, me apontam, comentam sobre mim. E eu nem sei que vocês existem . Vocês, com essa mediocridade pegajosa, são todos tão deprimentes. Obrigada, eu prefiro ser diferente. 






Eu gosto é dos que tem fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem

23 de nov. de 2010

Estamos vivos e é tudo, é sobretudo a lei.

Sou mulher ocidental, quase-branca, quase-bonita, quase-magra, na flor da idade, na flor do tempo, na flor da efemeridade. Sou classe média, glamour decadente, boas escolas, boa comida, carro popular, cabelo esticado, visionária que sou almejo um carro assim que passar no vestibular, para viver minha vida medíocre sob os holofotes e os aplausos da sociedade.
Mas um belo dia acordei para questionar e perguntei um grande " que porra é essa ? " e sabe o que veio como resposta ? cri cri cri.
Minha personalidade, ou a ausência dela, bem como meu caráter, honra e afins se resumem a um pedacinho infeliz de pele na xoxota.
Não sou boa o bastante se não tiver um hímem que me marque.
Como são falsas e fáceis as portas do grande século XXI.
Sou livre, mas se não faço direito sou fracassada, se não faço medicina sou medíocre, se escolho filosofia sou maconheira, se faço arquitetura quero ser dona de casa e usar diploma como enfeite, se sou lésbica é falta de homem, se sou puta é falta de homem, ou é excesso de homem, ou alguém partiu meu coração, se sou solteira é porque eu sou frígida, se sou frígida é porque nenhum homem nunca... Err, não obrigada.
E os holofotes que te exaltam são os mesmo que te jogam no limbo na primeira escorregadela, se você cai aplaudem, se você levanta tanmbém. A verdade é que ninguém da platéia se importa realmente, só o artista que divide o palco contigo sabe como é fatal um caco fora de hora, uma marcação errada, um bife. Só quem divide a cena contigo sabe como um improviso pode salvar - ou não - o espetáculo inteiro.
Ai Zeca Baleiro me chama, assim baixinho, assim sorrindo, assim : Baby, i'm so alone... Vamos pra Babylon ?
Sou privilegiada, minha manhã tem duas estrelas. Uma que me enlouquece, que me põe em chamas, que me liberta e outra que me tranqüiliza, que me abre os braços e que me diz que tudo, tudo mesmo, tem solução.
E elas me ensinaram a mais sublime lição : Não importa se a gaiola é de ouro, é uma gaiola. E você está preso, sim, e cabe a você se adaptar e cantar, ou morrer no silêncio.
Se você se cala e morre, olha só: colocam outro pássaro-gente no seu lugar, mas se você encanta, eles acreditam em qualquer coisa que você cantar.
Eles acreditam em tudo que parece bonito, e te assistem todos os dias no mesmo horário prontos para acreditarem no que você cantar.
Se funciona ?
Muito.
Mas para que funcione, para que você chegue lá você tem que estar consciente da sua gaiola, consciente de si, com algum ideal, e sobretudo, você tem que saber cantar. Gritos não resolvem, silêncio tampouco. Tem que se cantar macio, bonito, no tom. O Guidom ? O gênero ? O ritmo ? É seu.
Aventure-se na liberdade de saber-se aprisionado.
E questione-se.
Não porque você existe, mas principalmente para que sua existência valha algo e permaneça por aqui mesmo quando você se for.


Para ler ouvindo : Só - Zeca Baleiro e Adriana Maciel ( porque é linda )  ou ainda Infinita Highway  - Engenheiros do Hawaii ( porque é revolucionária )

15 de ago. de 2010

Genericamente falando.

Desde o movimento feminista no Brasil, ou melhor, desde que ele teve voz ativa, implantou-se na sociedade patriarcal brasileira ( bem como, suponho, ter acontecido em outras sociedades patriarcais ao passarem pelo mesmo movimento ) uma nova entidade, um novo tipo de " homem moderno " com um novo ponto de vista sobre a mulher .
Esse " homem moderno " aprendeu tudo a risca com o papai, e quer que sua esposa seja uma mulher moderna, também . Só que ser moderna do ponto de vista desse especime masculino é ser uma workaholic de dia - o que é bom para as despesas familiares - e uma Amélia de noite e aos fins de semana. E a jornada dupla, vira tripla, e quando os bebês chegam não é mais uma jornada numérica é uma jornada de infindáveis frustrações. Isso porque o lar e sua sanidade/integridade depende de nós, e então nos vemos enredadas numa questão de gênero, que genericamente falando é um conflito de interesses socio-culturais de uma sociedade provinciana de valores deturpados .
A questão começa a ser implantada na infância, certa feita falei que gostaria de ser mãe solteira numa reunião de família e vi - sem entender - algumas taças caírem de mãos sobressaltadas, hoje vejo tudo com pesar.
O mesmo pesar com o qual encaro que na minha idade - Dezoito anos, sim senhor - existem meninas que falam em pegar diploma para ser dondoca, sim, e outras que falam em casar cedo, outras muitas que se vulgarizam pensando estar protestando contra algo que sequer compreendem e mais algumas que tem medo de falar, porque mulher que fala é mal vista, é extravagante e logo recebe uma pecha que denigre sua imagem pública.
E quando eu me pergunto onde isso tem suas raízes e porque eu sou " diferente ", todas as respostas levam a educação. Uma educação diferenciada, me fez uma mente diferenciada, uma vez que não foram repassados para mim valores de uma conjuntura moral falida dentro de seus próprios dogmas.
Agora eu pergunto a vocês, e quem é favorecido com essa depredação moral ? Porque uma vez reprimidas as mulheres com voz ativa e continuada a cultura das " Raimundas " ( As quais eu diria ser: feias de mente e bonitas de bunda, pernas, olhos, cabelo e todo o resto - que realmente não importa se não for acompanhado de sapiência. ), nós temos um empobrecimento de todas as camadas da sociedade, porque, as Raimundas também serão mães. E nós não precisamos citar exemplos, todo mundo conhece crianças vulgarizadas desde cedo. Essas serão mães também .
Olha, dona sociedade. Há que se cuidar do grão, porque frutos podres são irreversíveis, grãos podem ser tratados.

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !