Bosque do Anjo Solidão, Agosto de um ano qualquer.
Amie,
Te olhava de longe, Améllie, naquele lugar que me puxava todo o tempo para a realidade, bonita, simples e verde. Mas, como quem não gosta do cheiro que sente, franzia o nariz para a sua arrogância, também para a realidade, Améllie. Nunca fui grande fã dela, você já sabia. E você... Você me inspirava realidade, com todos aqueles questionamentos. Você não respeitava a minha lira e eu pensava, " O demônio é falacioso, Gilda, ela sabe. ", e me incomodava que soubesses das minhas fa...lácias, faltas, fantoches. Me incomodava o seu olhar, Amie, me incomodava que soubesse o que o meu guardava.
Quando tocou meu rosto, naquele dia gelado, e me falou sabiamente " Mentirosa ", metade de mim sumiu em Dó, a outra metade murchou em Si. Fui revelada, pelos olhos da menina-do-castelo-falido, como deixei isso acontecer ? Te sorri, mesmo mortificada em dor, e peguei sua mão.
- Vamos Dançar!
- Eu não danço, Gilda. - Toquei suas mãos com cuidado, ninguém nunca tinha te tocado assim, eu sabia, e te ofertei meu sorriso mais vermelho. Você ruborizou.
- Dança comigo, eu posso mesmo dançar sozinha, muitas vezes já dancei, mas agora que sabe que minto, não preciso mais mentir, já está tudo acabado mesmo, Amie. Vamos dançar em cima dos cacos da minha máscara.
- Meninas não podem dançar entre si, Gilda, não seja tola.- Te trouxe mais para perto, penso que foi o tom vacilante da sua voz, meio desejoso daquela dança, que me instigou.
- Quem disse isso, não sabe de nada, Améllie.
Lembra ? Lembra, caríssima, de como você sorria, dançando elegantemente aquela valsa - que só nós éramos capazes de ouvir - lembra de como a sua silhueta, as suas roupas, a sua ausência de verdades de aluguel contrastavam como toda a minha indumentária alegórica ? Sorri, não de desespero, não dessa vez. Você me disse depois, e eu acreditei. Porquê era preciso acreditar, e eu queria.
Por isso também, fiquei nua, à meia luz, num motel barato, dramaticamente deitada, na sua frente, nua em pêlo, exceto pelo batom, esse quem tirou foi você.
Diga que você me quer, porquê eu te quero também.
Gilda.
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3 de ago. de 2011
21 de ago. de 2010
GILDA II
Todos somos naturalmente pudicos. Por isso saímos para dançar à noite, como se não fosse deste meio, Gilda dançava ao meio dia, trajando preto da cabeça aos pés, sob o sol que despontava o fim do inverno. Gilda só existia em função do choque das mocinhas, das patroas, das empregadas, das infames e das hipócritas. Chocava a todas, com prazer, é claro .
Não dançava vulgarmente, como se poderia supor, nem era ballet clássico, tendo ares de louca.
Dançava bolero.
Dançava bolero.
E dançava sozinha.
Há muito Gilda não sabia o que era dançar junto, mesmo quando junto, estava sozinha. Era sabido que nascera para a solidão, sendo dela filha única. Espiou por um momento por sobre o ombro, avistou o mesmo rapaz Johnny, o mesmo Johnny da biblioteca, eram tantos Johnnys e tantas Gildas que considerou por um momento antes de render-se e com um maneio de mão e dos lábios rubros chamá-lo para dançar.
Não sorriu, nem disse "Oi", apenas estendeu a mão e pontuou, esclarecendo o que não pertencia a claridade:
- Estou esperando meu príncipe. - Hesitou, por um instante e tendo as mãos do moço Johnny nas suas, pôs-se outra vez a dançar, com ele.
Agoram eram dois no contraste da realidade, eram dois e não uma só, eram dois, eram um alívio. Eram três, no por fim. Eram três porque o pudor alheio não os abandonara, eram três e Gildas eram mil, bem como Johnnys, quantos eram afinal ?
18 de ago. de 2010
GILDA
Retocou o batom, carmim, como as unhas, todo resto era preto no branco, cabelo, roupa, sapatos. Mas era na confidência da pele pálida, que silenciava os segredo dos toques que sonhara. Há muito não sonhava, dormia, também, branco no preto. Mas tendo ele voltado para a sua vida, voltaram as mazelas, as dúvidas e as noites de calefação da pele pálida .
Não o queria mais, não o tolerava, mas sua pele, suas células - também vermelhas, também vulpinas - o queriam, e não podia conter esse querer carmim que berrava-o. E todo o resto a queimava, e não importavam mais os maços de cigarro que queimava a fio, tentando dizer que não, não, não era ele. Era só a merda dos hormônios.
Os sapatos ditavam um ritmo cadenciado pelo assoalho de madeira, queria sumir com os pensamentos, por isso estava ali. Livrarias eram sempre a solução do que era indissolúvel, segurou um exemplar comentado de " O príncipe " entre os dedos, os nós se faziam esbranquiçados, apertava-o com mais força que o necessário.
- Dane-se Napoleão! - Exclamou mais alto do que planejava, atraindo para si olhares perturbados de mulheres de meia idade. Ela mesma era uma mulher de meia idade, dentro da sua juventude interrompida, infame e inescrupulosa. Viu-se refletida num espelho, de relance, e se achou muito bonita, mas gasta, gasta da vida, concluiu. Pegou Clarice, Laços de Família, decidiu-se por fim. Ignorando os olhares e acenos de reprovação, dirigiu-se ao caixa , onde pagou pelo livro sob os cuidados retóricos, e forçados, de uma vendedora muitíssimo preocupada com sua comissão.
Saiu, os saltos estalando atrás de si, esbarrou num jovem homem, de cabelos negros, sobrancelha espessa e sorriso enviesado, ele segurou-a, por um instante, pousando seus olhos cobiçosos no xadrez da existência carmim.
- Desculpa - Sentenciou por fim. Enquanto os olhos dele a fitavam demasiado...
- Não, não! Tudo bem, não foi nada. Qual é o seu nome ?
- Gilda.
7 de jun. de 2010
De Gilda para Gilda.
Carmim, chegou guardando sorrisos
Sorriu para aquele outrossim
Olhos enegrecidos, pele de marfim
Cruzou as pernas, olhou para o arlequim
Deu uma piscadela, sentenciou o fim .
Sorriu para aquele outrossim
Olhos enegrecidos, pele de marfim
Cruzou as pernas, olhou para o arlequim
Deu uma piscadela, sentenciou o fim .
Referências: MENDES, murilo Gilda - poesia
ABREU, caio fernando Os sapatinhos vermelhos - conto.
30 de mai. de 2010
Procura-se .
Sorriu, tinha um cigarro pela metade metido pelos beiços obscenamente vermelhos. Trajava preto, o que a deixava ainda mais pálida, tinha os cabelos em cachos, parecia saída de um folhetim antiquado naquele lugar, com todas aquelas meninas padronizadas.
Tinha uma certa fragilidade que a envolvia e me fazia querer sorrir de volta para ela, mesmo odiando cigarro. Acenei, então, assim, como um desinteressado qualquer, ou como todos os desinteressados que notoriamente estavam interessados nela.
Mas, foi para mim que ela sorriu de volta, era para mim aquele maneio de cabeça sutil, e aqueles dedos frágeis que diziam "vem" com um movimento despojado. Levei um tempo para assimilar aquela mensagem, mas fui, fui e não voltei ainda. Já fazem 2 anos e eu continuo lá. Todas as noites de sábado, no mesmo horário, esperando-a, esperando o fim da nossa história.
E nenhum dia nesses 2 anos, nem mesmo no dia da morte de minha mãe, esqueci o calor dos teus braços. Não esqueci a delicadeza com a qual se curvava para mim e falava assim baixinho, com voz de menina que não condizia com sua aparência : " Você vem sempre aqui aos sábados né ? " .
Sim, eu venho sempre aos sábados.
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