14 de jul. de 2024

Abre a porta e a janela,

E vem ver o sol nascer.  

Manhãs com gosto de café, o sorriso cantado pelos Novos Baianos, a fumaça do incenso e do cigarro, a demora nas pausas, o excesso das pausas, o perfume das flores novinhas compradas hoje na feira. Ora, você sabia que com 50 reais e um pouco de boa vontade é possível produzir no mínimo três arranjos e presentear os vermelhos, roxos e amarelos desses jarrinhos por toda a casa, até quem sabe presentear as pessoas amadas?!E esse ventinho frio de julho, que sopras as folhas ressecadas no quintal, verde por todo lado, seja no limo das paredes surradas pelas chuvas, seja na grama que cresce abundante. Também tem passarinhos brincando aqui e acolá e mosquitos até, mas o bastante para não perturbar a paz. A Baby do Brasil tem mesmo um sotaque bonito, não é ? A preguiça dos corpos que se esticam no sofá, o calor das mantas e o cheiro que é de amaciante, mas também cachorro, uma moto que corta o silêncio repleto de sons. O silêncio em mim. Quando eu paro e consigo captar o bom do presente.  

26 de jun. de 2024

Não falem dessa mulher perto de mim,

 Não falem pra não lembrar a minha dor.

Ela tem um sono leve, a dor, sabe? Diante dela passos miúdos que não fazem barulho no corredor imenso das lembranças. Nem psicotrópicos nem drogas nem analgésicos nem nenhuma forma de intervenção externa interna possível impossível só até perder o ar e dormir e esquecer e eu esqueço e então vem uma foto, uma menção do seu sagrado nome. E a dor volta. Uma pequena fisgada no meu peito, fico suspensa no tempo, quase um instante. Quase uma eternidade. Fico sem ar. Algumas vezes disfarço o susto da dor falando seu nome sem rebuscamento nenhum, como se não fosse nada. E sinto que convenço uma plateia esperançosa de que eu não sinto a sua falta. Convenço de que a dor não é imensa, convenço de que a vida seguiu e ninguém vai reparar.  E ninguém repara, eu reparo, coleciono as nossas memórias e me aterrorizo muitas noites quando você visita meus sonhos. Fantasio que vou te encontrar por aí e me esforço para não te encontrar jamais. Não sei fingir bem. Acreditei por algum tempo que éramos almas afins e por isso sentia sua presença e adivinhava seus pensamentos. Hoje diante da finitude me sinto capenga. Foi muito difícil, é. É muito difícil acordar e dormir num mundo onde você me despreza. Foi diante do desprezo que eu desisti, sabia? Pra mim o desprezo sempre foi a morte do amor. E olha só eu te amava, eu te amava com tudo que eu tinha. Hoje quando mencionam seu nome numa roda eu sinto o mundo girar numa vertigem horrorosa. Já quis apagar você, já quis desapegar de você, mas hoje tudo que me resta de tudo que você foi é essa cólica que eu sinto, cólica não cólera, no peito quando lembro e lamentavelmente eu lembro muito ainda. Eu sei que um dia eu não vou lembrar mais tanto e que a memória do amor amado se dissolverá na paisagem. Já vi isso acontecer antes, vou ver isso acontecer depois. Para mim perder quem eu amo sempre foi pior que a morte e as lágrimas salgadas não consolam a imensidão de mar em mim. Mas eu sigo, com as mortes no peito, o luto que não tem fim, a saudade que amarga, sigo tentando me lembrar quem eu era mesmo antes de você, para ver se eu descubro quem eu posso ser depois. 

11 de jun. de 2024

Eu e água,

Para a água da vida.


Estou brincando no rio e sou criança. O medo não me assalta, somos apenas nós duas - o rio e eu. Me estico sobre seu leito dourado e me deixo acariciar, recebo o carinho que ela me oferta e somos amigas. Espalho água, a reviro entre meus dedos, experimentando sua temperatura, quase sempre fria, e somos amigas. O rio me conta suas histórias de água e eu lhe conto minhas histórias de volta, quando olho no olho d'água também me enxergo, me enxergando umedeço as minhas fontes, me sinto leve. O rio caminha devagar e sempre, agora já adulta, eu corro. Eu tenho medo do rio, mesmo que ele não seja especialmente perigoso, parece que a água guarda um segredo sobre mim que só poderei descobrir mergulhando, mas eu me recuso, não somos mais amigas, estou amarga. E então um dia, por descuido o rio atravessa meu caminho, mais dourado do que nunca, e eu me encanto com as cores que ele traz em seus braços, eu quero ser amiga do rio, como fui em criança, mas não sei como, sinto que perdi o jeito. O rio então canta para mim, no meu momento de maior agonia, o rio canta para mim e me diz que outra vida fresca, próspera e boa é possível. Eu mergulhei, mesmo com medo, de olhos abertos e corpo presente e me permiti ficar. Eu quis ficar, escolhi ficar, mergulhada no rio, de olhos abertos, encantada com os presentes que ela nem sabia que me havia dado, mas recebi e fiquei. Fiquei e hoje sinto como sentia em criança a alegria do mergulho e o carinho do rio me salvou da amargura. O rio viu em mim com seus olhos de água e vida o que eu já não via mais, alegria. E me batizou Layó, alegria. E o rio me escolheu pra ser dela e ser minha, para sermos juntas - eu e água. 

5 de jun. de 2024

Essa infinita Highway ,

 Memorizo o céu de uma cidade qualquer enquanto dirijo, prometo para mim mesma não esquecer. Capturo a cena e retorno para ela, constatando que ainda lembro. Coleciono memórias de um passado distante e costuro-as no presente para que ele não perca o sentido. Às vezes acho a vida pouca, quando assim, quero correr mais que as pernas para longe, para a vida muita. Às vezes dirigindo me sinto mais importante que o dono da preferência na rua, me aterrorizo de mim constatando que também sou mesquinha e logo me perdoo, repetindo pra mim mesma que sou pessoa - tenho direito às minhas falhas - brindo as minhas contradições e sigo segurando o volante da minha vida. Carrego dores que não deixam de existir, não importa qual caminho eu pegue, vícios e multas de mal comportamento têm me seguido obstinadas. Tudo me convida a parar, apreciar a vista, encosto o carro, respiro fundo, visito o céu de meu registro mais antigo e bordo no presente o assombro do mais novo. Não quero motorista, quero dirigir livre. Às vezes eu gosto de estar dentro de mim, às vezes queria estar no outro. Uma vez me disseram que Ferrari não tem adesivo, nunca me imaginei Ferrari, estou mais para ferrada mesmo, mas cubro meu corpo de desenhos e palavras que são apenas minhas e que só eu escolhi para mim, faço do meu corpo automóvel e estrada, me percorro e me percorrendo não me esgoto.

14 de mai. de 2024

Mas se apesar de banal, chorar for inevitável

Eu vejo nos rostos que compõe o que eu entendo como família expressões que contam a minha própria história. Em algum momento eu não via as semelhanças, não via mais o balanço dos pés cheios de joanetes, a narrativa de uma classe trabalhadora cheia de desafios amorosos, não via o bom gosto das músicas como meus. A morte me mostrou o que é meu. A morte, parte inexorável da vida sempre tem uma generosidade na sua narrativa, ela ensina. A iminência de perder o conhecido, perder o desconhecido, perder os futuros e perder os presentes coloca em perspectiva o que desconhecemos. Todo início de mês, numa quarta feira por vários meses consecutivos fiz um feitiço pedindo que as dinâmicas do cuidado aviltado pela realidade, que as dinâmicas de família que desconhecem limites, que as dinâmicas da minha subjetividade e da minha cabeça ocidental fossem desarmadas de mim, todas as quartas recebi respostas inacreditáveis. A cegueira se afastou de mim e reaprendi a enxergar, não o modo como as coisas funcionam, o modo como eu mesma estava funcionando. Tirar a venda me ajudou a revelar um corpo vazio, eu estive vazia por tempo demais. A minha mãe de santo falou que aprender a fazer magia era primeiro fazer e depois ver, o resultado era o exercício da fé, fui fazer e fui vendo de novo. Não vi apenas coisas bonitas, eu vi muita dor, mas uma dor que eu mesma me causei escolhendo acreditar e nomear o inimigo como amigo, o desconhecido como conhecido e desamparando o que sei de mim para mim. Exu está aqui, brincando comigo, junto às mães maiores que ritualizaram na sua volta ancestral para minha vida a necessidade de não temer os voos, mesmo os inesperados, a mulher pássaro precisa voar. E as vezes voar no nenhum, de volta para si mesma, sem rotas, nas rugas de expressão que crivam a realidade.  

21 de abr. de 2024

Aí foi que o barraco desabou,

" É isso, a fonte secou!" brada à plenos pulmões, "Não vou mais tolerar nada, agradar ninguém, amar ninguém" continua, dessa vez um pouco mais baixo. E no silêncio se recolhe e encosta o corpo na parede, a frieza toca as costas como um afago. "É isso" repete mais uma vez com um suspiro ao final. Se dá conta então que não gritou, exceto na imagem ficcional que criou para si mesma, ao contrário estava emudecida, lábios secos e contritos, maxilar rígido, encarando um estranho qualquer fixamente. Com um maneio de cabeça virou o rosto para o outro lado, onde uma criança sorria bobamente para o nada. Percebeu que sentia falta dessa sensação que supunha na expressão da garota, hoje seu rosto relaxava nessa cena de grito mudo. Se perguntava se era possível vê-la quando olhavam para ela. Tinha essa impressão cansada de que os outros não a viam, apenas se apresentava como uma miragem dos desejos dos outros. Era curioso, causava uma certa estranheza intimamente gostar disso, se sentia caleidoscópica e intocável, aquilo que ninguém vê, também ninguém macula. Talvez por isso tenha prostituído seus dias em telespectar a vida de fora, imaculável no seu eu invisível. Talvez por isso também sofresse com o que entregava de bom grado a quem não lhe alcançava, e por um instante a ocorreu que a fonte não precisava secar, ela precisava parar de verter. 

22 de mar. de 2024

Cada ser tem sonhos a sua maneira,

 No ronco da cidade uma janela assim acesa.

Acendem janelas no meu desejo,

Por isso não durmo bem, 

Sonho tem [embora o sinta só]
Corro para Morfeu pedindo...

Arrego, mas a dor que carrego

Me assombra nas pálpebras

O desejo explode na contramão

Ainda não tem forma 

Mas tem informe 

Uniforme

Imensidão

Parece um suplício acordar do início do não

O sonho é o vício da rotina, a dor seu guidão

O desejo não

O desejo planta flores no submundo da devassidão

O desejo acorda o dia 

que o sonho rouba em vão

Fico presa na contradição

De sonhar sonho só

De desejar pelo não


10 de mar. de 2024

Quando você me deixou, meu bem

 Me disse pra eu ser feliz e passar bem. 

Você sabia que pessoas que se amam fazem espontaneamente corações com os corpos quando se abraçam? Eu acredito que o coração como símbolo venha desse gesto, mas eu também acreditava que "Leãozinho" foi escrita para mim então acho que meu crivo de explicações é muito subjetivo. 

A dor é um argumento mais convincente que o Amor. Foi o que eu disse numa conversa despretensiosa, é o que eu acredito nos dias difíceis. Que não cabe no axioma do Amor a força de convencimento e mobilização que a dor cria. A dor com seus inquestionáveis traz uma valor de execução, perder por exemplo, dá conta de tudo que é intangível mas que se deseja tanger, pena que quando a dor te mobiliza ao transito não tem a força de uma crença que a sustente e diga à tudo que pertence a memória que vale mais o amor. A dor convence quem sente, o Amor convence aos pares. Mas quando decidimos perder, o abandono do sujeito amado não é maior do que o abandono de quem Ama, deixar de amar é se colocar a disposição da dor. 

Foi (no passado, não "É" e "É" no presente) assim que eu aprendi a saber quando era amor, inclusive, quando a ausência doía. Eu nunca tive amor ausente, ouvi muita Bossa Nova em tenra idade e aprendi que "mesmo amor que não compensa é  melhor que a solidão." De certo que o desejo de evitar a solidão é sobretudo o desejo de evitar a dor. Cazuza estava certo quando disse que morrer não dói? Sim e não, depende da perspectiva, o que morre não morre e só, morre também para alguém, para aquilo, para os propósitos e todas as próximas vezes que caem junto. 

Talvez a pergunta diante da morte seja "Como vou viver?" com algo morto dentro de mim ocupando todos os espaços e vivendo <ainda> que seja viver pelo não. 

Felizmente Passa

 Perder um amor é pior que a solidão. 

Eu perco o chão, eu não acho as palavras. Eu ando tão triste, eu ando pela sala, eu perco a hora, eu chego no fim, eu deixo a porta aberta...Eu não moro mais em mim. 

Eu estou ao meio. 

Onde será que você está agora ?

Desculpa, isso era para dizer:

Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer.

Já me fiz a guerra por não saber (me leva amor),

Não tinha mais como voltar àquele bar, as incursões na vida noturna e o glamour dos velhos tempos esvaneceram. Tinha agora uma vida fora da noite, um emprego honesto, seus silêncios e uma necessidade de sono que colocou os sapatos vermelhos de lado. Era um outro desdobramento de Adalgiza, de Gilda, de qualquer mulher. Mas ainda com algum apreço pelos líquidos amarelos para lubrificar os pactos sociais de silêncio da noite nas agruras do dia. Ainda tinha a lembrança do vermelho nos lábios, mas agora ouvia Beth Carvalho no domingo e preparava um lombo para a família, resignada nas transgressões, mas nunca no afeto. O tempero nos dedos enfeitava as unhas bem feitas, havia alguma vaidade, ainda. Mas os pés descalços, tocavam um chão sem sonhos. A realidade abaixo dos pés anuncia o calor dos dias, a necessidade de limpeza da casa, as cheganças que fazem festa na dor. 

 Vim de longe léguas cantando eu vim (me leva amor)/Vou, não faço tréguas sou mesmo assim

(Por onde for quero ser seu par)


24 de fev. de 2024

Aniversário de Sobriedade

 E eu preciso de coragem pra viver fazendo as pazes...Ou quase. Se me der guerra eu quero mais, o tempo fecha eu tô de pé, chamando temporais, viciada em caos, na beira do cais. Banquete animado à um bando de animais... Black Alien


Estou num quarto cercada de livros. Muitos eu nunca li, porque trabalhar 40 horas semanais drena  minha energia vital. Admiro quem consegue trabalhar muito e ter uma vida: ler, malhar, ouvir música, ver beleza nas coisas. Eu quando trabalho muito não vejo sentido em nada. Cumpro a função social feliz de atestar minhas vitórias por meio do dinheiro imaginário, tenho coisas, pago financiamentos, ando bem vestida e tomada banho, tem sido o melhor que consigo fazer, equilibrando a mediocridade da ficção de ser uma mulher de classe média limpinha com as minhas marginalidades todas. Fumo maconha, chupo buceta, acordo de ressaca e repito. Ressaca de tudo que eu não vivi ainda. Falei pros meus amigos que ando meio niilista, mas realmente não acho que o problema seja eu. Vários deles também estão assim: sedentos de uma oportunidade de prazer que viabilize a nossa existência e dê contornos para ela, sem abrir mão da ficção da mediocridade: vencer pelo trabalho: HAHAHA. Não é um jogo de ganhar ou perder, é um jogo de perder e perder. Vendo minha força de trabalho à um preço justo, mas nunca é o bastante. Esse ambiente insalubre da vida propicia vícios, arroubos e afetações. Fico me perguntando se sou eu que estou maluca ou a marginalidade tomou mesmo conta de mim. Quando eu vivia no mundo, acreditando que sendo parte de um coletivo de luta eu estaria dando minha preciosa contribuição para a mudança que parecia crível, eu vivia melhor. quando eu acreditava eu vivia melhor. Tinha uma motivação intrínseca, tinha uma razão de ser. Eu sou essencialista para caralho, sempre penso e me ressinto da ausência de essência, quero ver as marcas da essência e me digladio com a aleatoriedade da existência, parece vazio assim.  Pelo menos brigando para existir eu sinto que faço algo, trago a angústia, cuspo fumaça nos transeuntes, transgrido leis, marco corpos. E só. Acordo para a ausência dos antidepressivos, durmo para as razões do deprimir. Se eu faço tudo que o jogo pede, porque não sinto a alegria que me prometeram? Sonho liberdades quando me permito, mas são frágeis e curtas as escapadas. Choco de propósito, absolutamente consciente, os que vivem como eu, ainda assim me acovardo na burocracia do que " deve ser feito" também tem um teatro de intenções canastronas aqui. 

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !