27 de jun. de 2010

Corsário .

- Desculpa por ter sido uma péssima namorada, eu não sabia o que fazer, mas eu gostava de você de verdade.
- Desculpa por ter sido um péssimo namorado, mas eu precisava de um refúgio, eu me sentia sozinho, mas eu gostava de você, de verdade.
- Você não quer voltar a ser uma pessoa apaixonada ? - Uma pausa reflexiva
- Eu nunca deixei de ser uma pessoa apaixonada, acho. - Respondeu hesitante, sem olhá-lo nos olhos.
- Foi a pior coisa que você poderia ter me dito.
- Desculpa ...
- Você não merecia nada disso, nada daquilo.
Entrementes guardamos o " nada de mim, nada de nós "

Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo mar, meu coração tropical partirá esse gelo e irá, como as garrafas de naufrago e as rosas partindo-a.


Para ler ouvindo Corsário ( do João Bosco ) com a interpretação de Elis Regina.

19 de jun. de 2010

Remar.

-Não gosto mais de você, mamãe, eu vou fugir! - E saia pela porta levando só uma boneca, um pequeno coração rebentado de nãos sonoros da mãe e uma dose de dignidade ingênua .
-Vai, vai mesmo.
E eu fui.
Mas voltei.
Eu sempre volto, não sei exatamente porque isso acontece comigo, o fato é que eu não vou sem voltar, eu não sei fugir. Cachorro magro que sou, caio da mudança inúmeras vezes para me deparar com a absoluta verdade da fome- que é minha - dos meus donos.
E são tantos donos ! Pai, mãe, amigos, amores, amantes. E eu aqui me perguntando porque eu volto para eles o que tem de errado comigo que me faz querer esse carinho, esse amor, essa atenção que ou já não me pertence ( não é amiga ? não me amava ? não ), ou já tem novo lar ( não ia ser para sempre, você não prometeu que ia lutar ? Quem aqui é mais covarde ?), ou é um protecionismo exacerbado que me sufoca. E a lucidez da imperfeição faz-se clara, nítida e horrenda. Quero chorar, transformar em lágrima tudo que eu não sei dizer, mas eu não sei dizer nada, nem tenho nada a dizer. Eu estou errada, o barco afundou e eu não sei nadar.

Mas voltar sempre cansa,
voltar sempre,
cair de novo,
nova mudança.
Cansei dessa dança.





Para Laizza Pedroza .

11 de jun. de 2010

Conversa de botas batidas

Vi solta por lá, bichinho pequeno, pedindo carinho e atenção. A tomei nos meus braços, fiz dela filha, irmã, amiga, fiz dela refúgio.
Me contaram que é quando os filhos entram na adolescência que tudo fica mais difícil, e foi. Foi na adolescência da nossa amizade que você ficou rebelde, sem causa, foi lá que você fez de mim mãe sozinha, protetora desgostosa e a cada nova topada sua meus argumentos se esvaiam, perguntei as outras mães o que fazer, como agir. Elas diziam num liberalismo infindo " Deixai fazer, deixai passar ", mas não passou, só fez.
E fez tanto que me cansou, desisti da maternidade, de você, pranteei seus vícios um a um, fugi, fugi do mundo me refugiei longe dos seus paradoxos, cansei de nutrir esse não-amor por você, filha.
Desculpa ter sido fraca, desculpa te largar quando você mais precisava de uma mãe, ou uma amiga, mas sou criança como você. Sou o que você vai ser quando você crescer, o que espero que seja logo.
Espero que você entenda que tudo que fiz foi por te amar demais e por não suportar, não saber lidar, com o que dia após dia, a cada nova expectativa frustrada, você se tornou. Quando você voltar para casa, quando cansar de fugir, mamãe ainda vai estar aqui, para contar histórias para você dormir tranqüila, para cantar para te mimar.

Mãe, amiga, irmã, com amor.

7 de jun. de 2010

De Gilda para Gilda.

Carmim, chegou guardando sorrisos
Sorriu para aquele outrossim
Olhos enegrecidos, pele de marfim
Cruzou as pernas, olhou para o arlequim
Deu uma piscadela, sentenciou o fim .



Referências: MENDES, murilo Gilda - poesia
ABREU, caio fernando Os sapatinhos vermelhos - conto.

30 de mai. de 2010

Procura-se .

Sorriu, tinha um cigarro pela metade metido pelos beiços obscenamente vermelhos. Trajava preto, o que a deixava ainda mais pálida, tinha os cabelos em cachos, parecia saída de um folhetim antiquado naquele lugar, com todas aquelas meninas padronizadas.
Tinha uma certa fragilidade que a envolvia e me fazia querer sorrir de volta para ela, mesmo odiando cigarro. Acenei, então, assim, como um desinteressado qualquer, ou como todos os desinteressados que notoriamente estavam interessados nela.
Mas, foi para mim que ela sorriu de volta, era para mim aquele maneio de cabeça sutil, e aqueles dedos frágeis que diziam "vem" com um movimento despojado. Levei um tempo para assimilar aquela mensagem, mas fui, fui e não voltei ainda. Já fazem 2 anos e eu continuo lá. Todas as noites de sábado, no mesmo horário, esperando-a, esperando o fim da nossa história.
E nenhum dia nesses 2 anos, nem mesmo no dia da morte de minha mãe, esqueci o calor dos teus braços. Não esqueci a delicadeza com a qual se curvava para mim e falava assim baixinho, com voz de menina que não condizia com sua aparência : " Você vem sempre aqui aos sábados né ? " .

Sim, eu venho sempre aos sábados.

26 de mai. de 2010

10 anos, afinal.




Alanie diz: Achei essa foto tão tão tão parecida comigo

Ana Elisa diz: É assim que você se vê ?

Alanie diz: Por dentro, não por fora, sim.

Ana Elisa diz : Nada a ver, você por dentro se parece com essa aqui :

24 de mai. de 2010

Ver melhor...

Preto e vermelho
Pulsando, arritmia,
fora do tom, em sincronia
com a cor do desejo

Branco, lilás
Suando, euforia
no mesmo compasso
carícias no entrelaço
de beiços vulgares

Bege e azul
Escrevi um bilhete,
e nele um Adeus...
...com gosto de até logo.


-

Na sequência de cores da minha aquarela da noite passada: Roupa, boca, pele, unha, papel e caneta.


22 de mai. de 2010

Eu rabisco o sol que a chuva apagou.

Fechei os olhos - mas não sem antes espiar os dois lados - puxei o edredom até que este cobrisse todo meu corpo, e então, como não fazia há tempos, rezei.
Rezei todas as rezas que sabia, e depois inventei algumas, me perdi, troquei sílabas, palavras, frases inteiras e adormeci assim, rezando.
Acordei assustada, pedindo clemência ao silêncio, acordei esperando um abraço que não estava lá.
Chorei, e cada uma das lágrimas vertidas tinham um silêncio em si, a última, entretanto, tinha um abraço. Antes que ela se espalhasse pelo travesseiro, como as outras, a capturei com o indicador e levei-a aos lábios, sorvendo-a.
E cada parte de mim agora é abraço, o silêncio se foi com as lágrimas.

21 de mai. de 2010

A beleza de ser um eterno aprendiz.

Subir, voar, empreender
Ser capaz de contornar
As voltas que a vida dá
E aprender a crescer

Mudar, sentir, sonhar
Enfrentar os medos
Saber manter segredos
Não ter vergonha de errar.

Aqui agora, ou em outro lugar
Saber ser justo e pagar por isso o custo
É aprender a não julgar.

Talvez além, iremos juntos vislumbrar
O resultado do aprendizado
Na fina flor a desabrochar.

17 de mai. de 2010

Onde brilhem os olhos seus.

Das mãozinhas rápidas cortando o ar em movimentos repetitivos, acompanhados de gritos e chutes. Eu com um sorriso orgulhoso no rosto e os olhos colados na pequena Karateca, aplausos. Quanta força!
E ela se despediu do seu público eufórico com um cumprimento tradicional e veio até mim, sorrindo tranquila! Às vezes eu queria te pegar no colo . Abracei, como todos os abraços que destinava a ela, com força, vivacidade, duas palavras que eram só dela e que de alguma forma ela extraia de mim num abraço.
Gostaria de te dizer o quanto eu me orgulho.
Cutuquei as costelas, ela parecia sempre tão frágil, ela exclamou qualquer coisa e esboçou uma reação, mas tão logo aquietou-se com as perninhas bem juntas e as mãos sobre elas e começamos a cantarolar juntas uma música, rimos da nossa sincronia, ríamos muitas risadas daquela forma.
Nos despedimos, sabendo que estaríamos em nós a cada nova manhã, sabendo que não nos largaríamos nunca. Não solta da minha mão ? Nunca!
Já éramos parte uma da outra, e era esse ser em partes que nos dava forças para continuar.

Eu não sei dizer o que quer dizer, então eu escuto.

Obrigada por me deixar em parte ser você, Thainá Freitas.


Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !