12 de mai. de 2010

Ilíada .

O vento trazia consigo o cheiro de final de tarde numa cidadezinha de interior. Sentada num banco qualquer de uma dessas praças onde todos se encontram, perto de um chafariz, no meu colo repousava um semi-deus, vamos chamá-lo aqui de Hércules.
Podia ser para sempre.
Ele envolvia meu rosto com ambas as mãos e falava sem parar sobre coisas aleatórias, queria aproveitar cada vão momento. E sorria, sorria daquele jeito que só os semi-deuses são capazes de sorrir. Eu, que vim ao mundo só para cantar seus feitos, sorri de volta. Nunca serei capaz de te deixar . Fiz milhões de promessas, algumas das quais me arrependo profundamente, mas não me calei, falei tudo que me vinha a boca, queria desesperadamente que Hércules se calasse, cada palavra dele fundava um conjunto novo de sonhos que eu sabia ser cedo demais para que existissem. Por favor não faça isso comigo. Ele calou-me com um beijo ao passo que começou a cantar uma música conhecida nossa de outros tempos...

Você é algo assim, é tudo pra mim, é mais que eu sonhava... Você é mais do que sei, é mais que pensei, muito mais do que eu esperava... Eu vou morrer de saudades, não não vá embora...

E eu vi, rolarem pelo seu rosto muitas lágrimas disformes, e eu o achei tão bonito assentado ali no meu colo, tão frágil, tão humano que eu me curvei aos seus pés. Jurei amor eterno vinte vezes no silêncio da minha falta de experiência.
Mas no minuto seguinte, descobri que cada uma daquelas lágrimas havia sepultado uma parte de mim. Tarde demais.
Ele levantou, vitorioso, pegou suas asas de cera e foi buscar um lugar ao sol. Meu rosto iluminou-se com um sorriso de escárnio.

Você vai cair.

9 de mai. de 2010

Eu preciso dizer que te amo.



Ela está cada vez mais esquisita! - sussurra uma voz feminina estridente e fanhosa ao ouvido de um feioso qualquer, que como todo feioso é um despeitado covarde.
Mas é uma vaidosa, detestável! Quem ela pensa que é ? Só quer aparecer. -Ele responde com aquele ar afeminado crítico, mais alto do que sua maldade pretendia. Falta de classe. Não me contenho, nunca me contenho. Sinto um ímpeto de raiva subir-me pela garganta, penso em dizer-lhes mil coisas, dizer como eu estava enlouquecendo, ou como eu tinha nojo daqueles olhares inquisitivos em cima de mim, ou mesmo que eu não ligava para eles, que eu só queria viver. Não disse nada além de um " O que é ? " que nem ríspido foi, também não fiquei para esperar a resposta .
Não posso ser assim, não posso ser cruel, não posso, eu não sou igual a eles, EU NÃO QUERO!
Também sou covarde afinal.
Sigo os demais, ainda estava fantasiada de qualquer coisa que não era eu. Não ligo, estava perdida em pensamentos, olhos baixos, pareceria frágil, se não parecesse tanto com alguém que fui outrora. Senti os braços acolhedores do meu herói me envolverem, sorri. Não estou sozinha .
Eu te amo, sabia ? - Pensei, e não disse, disse entretanto uma frase sem qualquer valor sentimental, para nós, claro - Estou cansada.
Senti seus olhos verdes me furarem, buscando qualquer coisa além disso. Tenho me lamentado tanto ultimamente ...
Silêncio.
Ele parou, eu continuei andando, lembrei de uma conversa anterior e uma bebedeira de outrora, lembrei dele me dizendo como se sentia, como sentia o mundo. Não posso afundar, não quero ficar no escuro outra vez. Nos encontramos outra vez, sorri, mesmo sem vontade não sabia ser rude com ele, na verdade, não conseguia.
O esquadrinhei com os olhos, estava mais bonito...era forte. Mais do que eu sonharia.
Eu te amo ! - Disse num grito e o abracei, como sempre abraçava, todos os dias, daquele jeito quase maternal, quase como uma amante desesperada - que eu sou, afinal - só para vê-lo fingir o sufocamento - meu bebê! - e reclamar da minha falta de tato e depois, depois dizer para mim, sorrindo com os olhos, quase agradecido :
- Eu também te amo.

Em que momento eu coloquei a minha sanidade nas suas mãos ?

Para Luan Buriti Borges.

3 de mai. de 2010

Como eu sou girassol, você é meu sol.

Levantou os olhos outra vez, encarou as paredes forradas de sonhos antigos, marcas de mãos, recortes de revistas e fotografias velhas. Então, voltou a escrever.
O tec tec das teclas ressoava irritante, fez uma nova pausa, desceu as escadas com a leveza habitual, acendeu as luzes no caminho, passou pelo corredor, entrou na cozinha. Antes mesmo de entrar sentiu o cheiro de alho e ervas, sorriu. Como se estivesse desabilitado a sorrir, seu rosto não se rendeu rapidamente.
Esqueceu o que pretendia fazer, sentou - no chão mesmo - apoiou o rosto nas palmas das mãos e começou a recordar...

Lembrou-se de quem fôra um dia, riu sozinha de algumas piadas que contara outrora, lembrou de um amor que teve. Não tinha beleza que se equiparasse a esse objeto de amor infantil, nada, nenhuma das histórias contadas seria capaz de descrevê-lo. O amor era como um raio de sol- que eufemismo, pensou - e perigoso como tal. Mas irreverente que era, decidiu não usar o protetor solar.

Fez na areia dos seus sonhos diversos castelos, todos de arquitetura duvidosa, nem notou em que parte de sua tarde feliz a maré começou a encher. Só se deu conta da proximidade das águas quando elas já lambiam seus dedinhos. A água estava gelada, e o sol já estava se pondo. O sol poente sempre a havia seduzido, acho que era por causa de todo aquele vermelho no céu. Se afastou dá água, esqueceu os castelos, rumou em direção ao sol. Como não teve a sorte de
Ismália*, seu horizonte estava no chão, perto das dunas que só ela era capaz de ver.
Queimada e triste, parou a certo ponto confusa.

Porque me abandonastes, se sabias que eu era fraca? Se sabias que eu não era Deus ? - se perguntou num fio de voz.

Como resposta, viu iluminar-se uma lamparina numa barraca ali perto, a noite já havia apossado todos os cantos com seu azul triste e frio.
Pensou que talvez fosse a lamparina um pedaço de seu sol, pensou que podia ser um sinal, pensou que a noite ia acabar, que seu amor voltaria. Correu o mais rápido que pôde na direção do seu fiapo de esperança, decepcionou-se outra vez. Praguejou, gritou, prometeu que cresceria, que ia ser grande e adulta, que orgulharia seus pais, que seria médica, artista, advogada e jornalista, tudo ao mesmo tempo para nunca mais sentir o sol, nem vê-lo, muito menos amá-lo.

Adormeceu ali, perto da barraca decadente, embaixo da lamparina, o vento soprava impiedoso, não teve nenhum pesadelo nessa noite, mas acordou com uma carícia no rosto, morna e afetuosa . Teve medo de abrir os olhos, mas abriu.
Ficou surpresa quando descobriu que aquela era a carícia pela qual procurou a noite inteira. Seu Sol tinha voltado! E ele estava tão bonito ! Desculpou-se pelas acusações, disse-lhe que a culpa era toda sua, que tinha sido estúpida de sair sem o protetor. Ele ouviu, ouviu calado tim-tim-por-tim-tim e quando ela concluiu desesperada com um eu te amo qualquer, ele fez sinal para que ela se calasse, e disse, de uma só vez, num sussurro ...

Não temas, o prazer do meu calor é fugaz e banal, qualquer lareira pode te oferecer. Mas, nunca ninguém vai ser capaz de te ensinar tanto com uma queimadura, e, tampouco de iluminar todas as suas alvoradas com o mesmo carinho de outrora. E ninguém, ninguém mesmo, minha princesa, vai te amar tanto, e tão intensamente, que precisará fugir só para te mostrar a noite, só para te dividir com ela, porque a noite também te ama e eu devo isso a ela.

Rolou os olhos, abraçou a si mesma como se sentisse um frio insuportável - que vinha de dentro - mas resolveu ir para a janela, e ele estava lá. Lindo, como sempre, brilhando só para iluminar as suas alvoradas.





30 de abr. de 2010

Um cigarro, um segredo e nada mais.


Isso mata, você deveria parar.
Tudo mata, tristeza mata mais
amor mata mais, viver mata mais
E quem pode diagnosticar ?

Quantas vezes mais me sentirei devassa,
Nos meus caminhos tortos, sem tino,
Deixando por aí rastros de fumaça.
Quantos outros segredos guardarei desse azar
E quantas outras vezes verei minha mãe prantear
o vazio dos sonhos que não me viu realizar ?

Viver é um morrer progressivo
Dotado de um mistério medonho
Que só alguém que em pesadelos vê sonho
É capaz de adjetivar.



25 de abr. de 2010

Lucy in the Sky with Diamonds .

Tudo bem ?

Tudo Blues.

Domingo bom ?

Domingo é dia de se render,

De ir a missa, pedir perdão pelas infâmias semanais.

Façamos, diferente então!

Façamos poesia que o domingo é dos poetas,

Porque somos invisíveis aos olhos hipócritas do nosso mundo.

Segura a minha mão, dancemos, trepemos e cantemos!

Me siga e faremos a chuva sorrir, que não tem ninguém olhando agora.





- Inspiração, Otávio Dall'Asta.



Original :



Façamos poesia, domingo é o dia dos poetas, porque para o resto do mundo que pára e se rende aos encantos da poesia, nós não existimos, mas, segure a minha mão e dançemos, trepemos, cantemos, façamos a chuva sorrir, que não tem ninguém olhando agora...


24 de abr. de 2010

I WANT YOU.

Se você fizer uma radiografia da sua vida, verá com certeza - e quem sabe com um certo espanto - que eu apareço, do tornozelo ao pescoço.

Meu bem, meu bem, meu bem. Ouça o mal tom do alheio, quem irá nos proteger ?

Você vai me destruir! Me indignando, me enchendo de tédio, não me satisfaz!

Se me trocares nem por isso eu morro.

Me sinto só, me sinto tão seu.

Acabou chorare.

Medo de subir, gente, medo de cair, gente, medo de vertigem...Quem não tem ?

Com açúcar, com afeto.

Eu vou fazer uma canção pra ela.

Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer.

E eu não quero amor nada de menos, dispenso os jogos desses mais ou menos.

A letra "A" do seu nome, abre essa porta e entra, na mesma casa onde eu moro, na mesa que me alimenta.

Não se afobe não, que nada é pra já, o amor não tem pressa, ele pode esperar... No silêncio, num fundo de armário... amores serão sempre amáveis.

...


15 de abr. de 2010

Dó sustenido.

De longe, através da janela, a vi formar-se,
E mesmo antes de vê-la, já sentia seu cheiro.
Depois a vi crescer e aproximar-se,
Quando saí ela caia em si bemol
Batendo no meu rosto, lavando a minha dor.
A princípio pensei ser uma carícia,
Depois descobri que era tapa.
Chorei, chorei, inundei a rua com minhas lágrimas
Chorei, até o choro sustenir-se,
E a chuva que chovia de mim lavou a rua
E a outra, lavou-me a alma.



Não solta da minha mão, não solta da minha mão.


Para : Rafael Sady e Ana Elisa.

14 de abr. de 2010

Balada do Não que virá.

Talvez novamente me encontre
Marginal em seus pensamentos
Pulsando em sua veias
reavivando seus tormentos

Talvez, por um breve instante
Sinta sua razão vacilar
E venha ao meu encontro

E quando o talvez virar não?
E outra vez, talvez, não queira.
O que farei com a emoção
Que a ti nutria a vida inteira?

Talvez, quando sua razão vacilar....
Eu não esteja mais lá.
E, talvez, outra vez, se desencontre
E encontre em outros braços um novo lar.

I say a little prayer for you ,

Senhor, fazei de mim um instrumento de Vossa paz

E onde houver mediocridade, que eu leve a mim
E meus olhinhos infantis,
para a partir de mim, vislumbrarem o mundo
Os infelizes vis.

Senhor, fazei de mim um instrumento de Vossa paz

E onde houver efusão, que eu leve Franqueza
porque o Senhor é o caminho da Verdade
E eu sou sua imagem e semelhança,
E mesmo quando a mim me assolar
a descrença, faça com que pareça Bonança

E onde houver discórdia, que eu leve a Luz .



Alusão à oração de São Francisco.

13 de abr. de 2010

Incompleta e inconclusa.

Hoje eu 'tô assim.*

Se por acaso te quedar triste
E quiser o acaso que eu esteja lá
Não chore nem maldiga a solidão
Se achegue a mim e faça par.

Se me ver chorar com os olhos
Mesmo com um sorriso no rosto
Não me julgue, não me ajude,
Não ocupe esse posto.

Não finja que não sabe do que falo
Toda gente conhece a solidão
Alguns fingem que vivem...
Outros buscam uma estação.

13-04-10 às 00:48 pós conversa com Tainnah Bastos, estudante e dona do blog Hoje eu tô assim .

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !