Cuida do coração, não cai da escada assim, que mamãe fica assustada. Filhinha, vê se não esquece do que mamãe falou, brincar com a vidinha machuca e o seu amiguinho sonho é um tanto traiçoeiro. Filhinha, mamãe tá aqui de perto te olhando crescer maravilhada, filhinha. Você é linda, meu anjinho, não podia ser mais linda. As vezes mamãe se orgulha dessa sua beleza em silêncio, às vezes exclama baixinho " oh "! Ah, minha menina, não deixe que lhe puxem as tranças, puxaram as minhas, um dia, mas elas não caíram, vês? Ah, minha princesa, eu prometo que vou cuidar de você, prometo que a vida vai te assustar às vezes e às vezes ela te dará um mundo inteiro de alegrias, e eu prometo que estarei lá, para te ninar, meu bem, para te contar histórias de fadas e fados, estarei lá para te ver brilhar, sentada na primeira fileira do seu cartaz, da sua encenação, também estarei sentada na lira da sua poesia, minha filhinha amada, e não vou deixar que parta, embora saiba que partirão seu coração, não deixarei que fuja, Anita. Você é tão linda, minha menina, mamãe te ama tanto.
Dorme teu encanto, te prepara pra reinar.
23 de fev. de 2012
Minha briga, meu abrigo
Moro numa voz, num cheiro, meu céu tem duas luas crescentes que reverberam no seu rosto e orbitam surpresa e contentamento, dois sóis castanhos, tenho. Tenho um luxuoso terreno fértil, onde planto meus sonhos e lábios, seus cabelos me enredam e me afogam, no seu rio ondulado, seus leites me alimentam e em cóleras fico se me afasto do seu manto. Seus dentes que me mordem, me abraçam apertados quando me despeço, em estranhos laços se movem suas pernas quando me refaço, me movem seus passos, quando sorrio e espia-me com sóis em brasa. Moro num pensamento colorido, bordado em fios de ouro. Moro no amor grandão, nosso terreno de incompreensões, moro no nosso colorido jardim de margaridas, plena em vaidade dessa morada minha, que habito, vívida, mulher.Moro nessas lembranças aconchegantes dos seus braços, e nos muitos preguiçosos domingos do amor, mora nas segundas, e nas ansiadas sextas, mas sem dúvida nos inúmeros sábados. Moro nesse sentimento completo, confuso e inominável que chamamos Amor, moro-te, Amada minha.
Eternamente responsável
Por menos dor abandonei o parto, minha rosa calejada não te serviu, espetou seu dedo e foi-se embora com suas promessas, o jardim da vida que em confidências amigas prometeu, você mesmo tratou de incendiar. Tomou-me tudo, cúpula, jardim, mérito, sorrisos, fez tudo em doces, queria adoçar-me a boca à beira que meu coração deixou. Que amigo sois vós que me abandonou ? Amei a ti como a um irmão, troquei-lhe as fraldas, embalei seu sono, fui seu alento. Mesmo recém nascido em mim, irmão, amei-te. No meu campo de margaridas, te desfolhei lilases, ah irmão, como ousaste me comunar em flor, sendo eu tua rosa? Abandonas a mim e a si em mim. E deixa por aí semeadas as promessas que me fez e não cumpriu, os cuidados de jardim e as mentiras que despiu. Não sou perfeita, nunca te escondi. Mas fui tua amiga mais devota, em tempos de desfolhar, e hoje sou pouco menos que rosa, muito menos que amiga, quase nada irmã.
Minha senhora,
Uma amiga de longas datas, rainha de muitas paragens, veio a mim em pranto, de coração partido. Era uma mulher fascinante, forte, real em todos os aspectos de si, e da realeza. Me sorria em meios as lágrimas, tentava afastar a dor. Se você pudesse vê-la como eu a vejo, ela teria um metro e oitenta de altura, uns olhos da cor da noite que você quiser ver, ou do sol que você puder ser, um corpo escultural, talhado pelas cuidadosas mãos de Oxum, uma pele que parece abraço, um abraço que é feito sorriso, um sorriso que é feito seus cachos bem tratados, e sua coroa feita de cristais de chás e lágrimas a deixava com esse aspecto de mulher feita, vivida. Eu a amei, minha senhora. Talvez não da primeira vez que a vi, ali a temi. Mas quando ela me deixou vê-la, a amei. Éramos irmãs de condição, ainda somos. Mulheres demais, a amava muitas vezes como uma mãe. Quando eu precisava chorar, ela me abraçava e enfeitava a própria coroa com meu pranto. Quando chorava o mundo inteiro ficava vermelho, rubro de vergonha por si, por tê-la roubado seus cristais. E então, minha senhora, teve esse plebeu. Ele lhe contou histórias de mundos onde ela nunca pensou ir, e de pessoas que ela nunca pensou existir, e ele a beijou, e num beijo roubou para si os cachos bem tratados do sorriso da menina-Rainha. Ele nos visitou na corte, dançou e bebeu, encantou a todos, não se sabe se por ser-se ou pela imensidão que os olhos de sol, outrora de gueixa, fizeram notar. Ela o amou em um beijo mais profundamente que o mais profundo mistério do planeta. E ele foi embora. Não levou-lhe a honra porque não saberia onde carregar, deixou um bilhete escrito decepção e um maço de cigarros. Minha senhora, nunca vi nada mais triste, nunca vi Rainha maior. Parecia que a dor lhe espetava as partes e empurrava para cima, sua coroa brilhava como nunca e o mundo parecia feito em rubi.
Minha senhora, minha menina-Rainha não sabia da verdade, não sabia que o Plebeu era cego, não sabia que ele não podia amá-la, porque não podia ver-te, senhora.
É minha obrigação te contar, senhora, porque a amo. Porque embora Rainha de mim, sou seu amo. Porque, és minha irmã e sou tua, e és mãe minha e senhora das próprias águas, as que embebedam, choram e matam a sede, sinto muito senhora.
Minha senhora, não chore.
Minha senhora, és de lua e beleza, és um pranto do avesso, és um anjo-verso em presença e peso.
Com amor, Leãozinho.
22 de fev. de 2012
Tive medo e não consegui dormir
Estive por aí, meio só, muito só. Você não viu, ninguém viu. Minha solidão é sólida, agora, materializada nos barulhos externos, na frieza da casa vazia. Da minha casa vazia, a nossa também parece desabitada, eu só saí por alguns dias e onde está você agora? Tirei tudo do lugar, busquei um por fim, ou um portanto, por tanto desencontrei-nos ? Gosto do modo como o silêncio bate nos escuros de mim, mas esse desacompanhar me dá calafrios.
Esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante. A primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos.
27 de jan. de 2012
Miudezas de ano novo
Minha cama era meu reino naquele curto espaço do dia primeiro do ano tal. No meu reino tinha. Tinha gente, dormindo, acordada, sorrindo e dançando. Vulgar falar assim de bosta, mas é o que é. A gente nasce, chora, come e caga por toda vida e morre. Defequei, diria se lhe convém uma palavra quadrada cheia de éfes e quês, mas o certo é dizer Caguei, porque assim o fiz.
Você poderá dizer que é escatológico, e que eu sou uma mocinha, e mocinha não falam de suas intimidades, mas " Eu não tenho vergonha do que eu faço no banheiro " in memorian, Renato, meu guru espiritual que disse. Isso não importa, o que importa é quando e quando foi nos meus primeiros momentos no primeiro dia do ano tal.
E eis aí, toda a incompreensão que está em mim, que explico, e em você, que merece explicação, se é só botar para dentro e para fora, o quese aproveita? Tudo, ou quase tudo. Porque nem tudo há de se aproveitar, aproveitar tudo não é humano.
Por que a merda é saber que foi-se tudo aquilo que não tinha que ser aproveitado, embora estivesse dentro de você, a merda é saber que tudo por mais delicioso que seja, vira bosta e vai ser devidamente colocado para fora, seja com força ou sutilmente.
De um jeito ou de outro você limpará sua bunda, e irá embora.
A felicidade de cagar é genuína.
27 de dez. de 2011
De cima da pedra mais alta
Fiz, por acreditar, por ter vontade, fiz. E reafirmo o que fiz, faria novamente, igual ? Depende. Se eu fosse quem sou agora, não, certamente não, mas se eu fosse tal como fui, faria, de novo, mais quantas vezes fosse preciso. Hoje, faria melhor, faria antes, diria mais.
De cima da pedra mais alta, hoje, sei que fiz e fiz bem amor, história, filosofia, literatura, fiz laçoes, não nós porque ninguém precisa ficar se não quiser, pessoas passam e tem que passar, mas pessoas ficam e tem que ficar, mas só fica quem você quiser que fique, não porque você é mesquinha e sim por precisar de espaço na casa e no coração.
Laura me perguntou se eu acreditava no amor infinito, no para sempre, disse a ela que sim. Ela sorriu comigo e confessou sonhos antigos de ParaSempresInfinitos, concordei o que a gente ama vai para sempre conosco de muitas formas, mas o sempre humano é finito, é verdade.
Anita me mostrou os dentes, não a Anita de antes, a nova, a que abraça, Anita é uma menina de uns seis anos e alguns meses que corre pela praia chutando areia para cima e construindo castelos, muito intensa e inteligente, muito minha. Ela é filha de Laura, é minha filha também, de muitas formas.
Isabela me arrebatou, devo dizer, ela cresceu de maneiras imcompossíveis em mim, me lembrando sempre do nosso tão antigo bordão, me lembrando sempre de amanhecer brilhando mais forte, mais forte, mais eu. Continuo amando a Estrela, e a Amélie. São duas da mesma, a estrela é a que brilha na minha cama e a Amélie é a que brilha na minha briga, meu abrigo.
Por elas, as duas que uma só são, acredito no Infinto. " O Infinito é um dos Deuses mais lindos "
Laura disse da mágoa da Rosa para mim, Anita leva consigo as dores do mundo, Isabela tem força e graça, mas é Amié que me faz ter Fé e crer, Amié me faz precisar de cama e de colo, Amié me desampara, me faz mover-me em mim, mudar, crescer, Amié me empurra para frente e para mim.
As minhas de mim, as mulheres de mim que de formas e modos diferenciados fazem uma reafirmação do que vale a pena, do que acredito e de quem eu sou.
Derramam o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas.
De cima da pedra mais alta, hoje, sei que fiz e fiz bem amor, história, filosofia, literatura, fiz laçoes, não nós porque ninguém precisa ficar se não quiser, pessoas passam e tem que passar, mas pessoas ficam e tem que ficar, mas só fica quem você quiser que fique, não porque você é mesquinha e sim por precisar de espaço na casa e no coração.
Laura me perguntou se eu acreditava no amor infinito, no para sempre, disse a ela que sim. Ela sorriu comigo e confessou sonhos antigos de ParaSempresInfinitos, concordei o que a gente ama vai para sempre conosco de muitas formas, mas o sempre humano é finito, é verdade.
Anita me mostrou os dentes, não a Anita de antes, a nova, a que abraça, Anita é uma menina de uns seis anos e alguns meses que corre pela praia chutando areia para cima e construindo castelos, muito intensa e inteligente, muito minha. Ela é filha de Laura, é minha filha também, de muitas formas.
Isabela me arrebatou, devo dizer, ela cresceu de maneiras imcompossíveis em mim, me lembrando sempre do nosso tão antigo bordão, me lembrando sempre de amanhecer brilhando mais forte, mais forte, mais eu. Continuo amando a Estrela, e a Amélie. São duas da mesma, a estrela é a que brilha na minha cama e a Amélie é a que brilha na minha briga, meu abrigo.
Por elas, as duas que uma só são, acredito no Infinto. " O Infinito é um dos Deuses mais lindos "
Laura disse da mágoa da Rosa para mim, Anita leva consigo as dores do mundo, Isabela tem força e graça, mas é Amié que me faz ter Fé e crer, Amié me faz precisar de cama e de colo, Amié me desampara, me faz mover-me em mim, mudar, crescer, Amié me empurra para frente e para mim.
As minhas de mim, as mulheres de mim que de formas e modos diferenciados fazem uma reafirmação do que vale a pena, do que acredito e de quem eu sou.
Derramam o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas.
9 de dez. de 2011
Água da minha sede, bebo na sua fonte.
O gosto dos lábios, os grandes, os pequenos e aqueles que sorriem, que colados aos lábios meus, de sortidos tamanhos e cores, tem a mesma avidez. E embora com sofreguidão tenha me afastado dos lábios todos, beijo a saudade. Nem era pelo sexo que foi o sexo feito. Era pelo estar ali, por merecer aquele arroubo de intimidade e prazer, porque a gente nada nada nada e nada cinco dias na semana em buscas tão vãs quanto imediatas, mas é no seio nosso que amamentamos nossa sina, sina de si. Zona de conforto é o músculo que tremelica metido entre as pernas outras e ainda não. E ainda não é a comodidade da mentira, nem o conforto do inabitável - para além - nosso. E ainda não é nada disso que o beijo selou com gozo, e o gozo fincou-se em gosto.
O amor não é da ordem das compreensões.
O amor não é da ordem das compreensões.
19 de nov. de 2011
A parábola da menina feia
A menina não tinha nome, era " Ela " aos sussurros maldosos, " Ela" no escárnio dos sorrisos plásticos.
Ela era desgovernada, não bastasse o infortúnio da feiúra, não era aluna aplicada, não era sociável o suficiente para ser boba da corte, nem tinha um grande senso de humor. E embora demonstrasse grande domínio retórico, nunca era convidada para bate-papos informais, senão pelos outros que como Ela, eram os inapropriados para convívio. Eles eram também, a maior parte do tempo, seus amigos.
Ela passou pelo ensino fundamental, aos trancos e barrancos, no ensino médio continuou medíocre.
Desgovernada, inconstante, mas tinha talento diziam, para bajular aos outros, a fizeram de macaco de auditório. Ela, tomada pelo arroubo de ter encontrado seu lugar, foi lá, fez o que lhe pediram, e fez além. Mostrou seu potencial, disse-lhes de contos e histórias que não conheciam. E ainda que não esperassem, Ela, a menina feia, desgovernada, imoral e inconstante foi amada, e aplaudida, Alguém amou Ela, mesmo feia, e Alguém deu para Ela um coração em Sol. Então Alguém deu a mão para Ela, e Ela se viu capaz de voar.
E voou, um longo e cansativo vôo, desses que passarinhos de bico curto e asas breves não se arriscam voar. E achou um novo lugar para si. E se apossou desse lugar. Lá Ela não era Ela, lá era Eu e lá Alguém era Estrela, Luz, Nós.
Lá não existiam artifícios, mas existia a mim, de cima da pedra mais alta, do topo mais alto do mundo. Eu, que era feia e condenada pelo que nunca dependeu de mim, Eu que superei expectativas, até as minhas, Eu que sou o mundo de Nós.
Ela era desgovernada, não bastasse o infortúnio da feiúra, não era aluna aplicada, não era sociável o suficiente para ser boba da corte, nem tinha um grande senso de humor. E embora demonstrasse grande domínio retórico, nunca era convidada para bate-papos informais, senão pelos outros que como Ela, eram os inapropriados para convívio. Eles eram também, a maior parte do tempo, seus amigos.
Ela passou pelo ensino fundamental, aos trancos e barrancos, no ensino médio continuou medíocre.
Desgovernada, inconstante, mas tinha talento diziam, para bajular aos outros, a fizeram de macaco de auditório. Ela, tomada pelo arroubo de ter encontrado seu lugar, foi lá, fez o que lhe pediram, e fez além. Mostrou seu potencial, disse-lhes de contos e histórias que não conheciam. E ainda que não esperassem, Ela, a menina feia, desgovernada, imoral e inconstante foi amada, e aplaudida, Alguém amou Ela, mesmo feia, e Alguém deu para Ela um coração em Sol. Então Alguém deu a mão para Ela, e Ela se viu capaz de voar.
E voou, um longo e cansativo vôo, desses que passarinhos de bico curto e asas breves não se arriscam voar. E achou um novo lugar para si. E se apossou desse lugar. Lá Ela não era Ela, lá era Eu e lá Alguém era Estrela, Luz, Nós.
Lá não existiam artifícios, mas existia a mim, de cima da pedra mais alta, do topo mais alto do mundo. Eu, que era feia e condenada pelo que nunca dependeu de mim, Eu que superei expectativas, até as minhas, Eu que sou o mundo de Nós.
29 de out. de 2011
Primavera nos dentes
Seu sorriso me provoca,
O que nunca antes sucedeu,
[ Só de lembrar do seu risinho,
o mundo inteiro amanheceu.]
Posso até pedir que fique mais um poquinho,
Mas você é feito bichinho,
[Arredio, que foge pé-ante-pé,
devagarzinho]
E eu fico com o amor estampado na cara
Que poesia quando dá no mundo é rara,
E nem todo mundo pode ver.
Mas, quem ler esse poema bobinho,
E entender só um pouquinho
Como o amor cresce e floresce rapidinho,
Entenderá a verdade sobre a primavera,
Que se espalha e toma todos os dentes.
O que nunca antes sucedeu,
[ Só de lembrar do seu risinho,
o mundo inteiro amanheceu.]
Posso até pedir que fique mais um poquinho,
Mas você é feito bichinho,
[Arredio, que foge pé-ante-pé,
devagarzinho]
E eu fico com o amor estampado na cara
Que poesia quando dá no mundo é rara,
E nem todo mundo pode ver.
Mas, quem ler esse poema bobinho,
E entender só um pouquinho
Como o amor cresce e floresce rapidinho,
Entenderá a verdade sobre a primavera,
Que se espalha e toma todos os dentes.
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