29 de jun. de 2015

Grito de Alerta,

Estava correndo em círculos buscando qualquer coisa que desse prazer e qualquer prazer que me lembrasse você. E não fosse tão duro e doloroso. De certo não queria falar com você sobre isso, ou sobre qualquer coisa, não agora. Preferia as minhas buscas silenciosas, doía menos. Seu ciúme e minha vadiagem já tinham custado caro demais. Mas o pior ainda era enxergar você do meu lado, quando abria os olhos. Assim, nenhuma trepada era suficientemente boa, assim eu sentia que estava a dois passos de enlouquecer. 
Suas reticências me mataram no dia da dor, acho que isso era o pior de você, o silêncio nebuloso. Não espero pela sua piedade, sei do quanto eu fiz, destruí. Mas o foda era aquele copo cheio, misteriosamente cheio, outra vez cheio e cheio de novo. O foda era depois de tantos anos voltar a fumar. O foda era a saudade da tua pele na minha boca. A foda. A mágoa. Não vou olhar para trás eu juro. Não nos fazemos bem. Isso foi um erro. Eu repito e repito e repito: Grito de Alerta!
Que vontade de gritar com você! Te xingar e foder com a mesma paixão.
Com um cigarro manchado de roxo enfiado nos lábios, ouvindo agora os ecos do seu Adeus.

24 de mai. de 2015

B R O K E N

Eu não consigo dormir!
Por que?
Porque eu não consigo fechar os olhos nessa vida nem tão confortável e esquecer dos desconfortos dos outros e acordar no dia seguinte e continuar andando por aí como se nada estivesse acontecendo como se a cada doze segundos uma mulher não fosse estuprada tem gente atras dos números e números atras da gente eu mesma já fui estuprada a senhora sabia e até hoje eu não consigo me livrar dos pesadelos com números 6 vezes antes de mais 8 e depois o vômito durante 7 dias nem pude voltar para casa com que cara ia olhar para o meu pai que me educou tão bem para pedir que o cara colocasse camisinha e dizer que aumentei em 3 vezes a possibilidade de eu ter alzhelmeir porque não consegui falar.
Então você não denunciou?
 Não eu não consegui falar eu passei dias sem conseguir falar eu fiquei tão perdida atônita sozinha e muda que acho que ainda não voltei a mim e por isso eu tenho esse medo atrás da orelha de ser sufocada de sentir dor que a dor nem aponta e eu já tomo remédio para qualquer dor as vezes a dor é tão grande e o buraco tão vazio que eu tento outras drogras e elas nunca dão conta deste meu espaço frio e inóspito acho que ele levou uma parte de mim acho que era um anzol o que ele tinha e pescou qualquer coisa leve que me deixou tão densa e pesarosa que depois disso eu quase não posso sorrir mais
Como você está se sentindo hoje?
Como eu sempre me senti todos os dias como se eu fosse parte da sobra algo que não se encaixa acho que por isso eu não consigo dormir porque os pensamentos me invadem assim sem virgulas e vão me engolindo e me levam cada vez mais longe tão longe que as vezes não tem volta pro sono
Amytril, Rivotryl, Lexotan
Pro enjôo existencial Plasil.

13 de mai. de 2015

Você não sabe o quanto ser mulher é bom

O cheiro ácido de urina misturada ao sangue escorria pelas pernas e inundava os olhos, como não podia gritar, gemia contra o travesseiro e confidenciava sua dor, na pele as marcas que ninguém viu inauguravam a dor que ninguém notou. Ficou amargo sorrir, sua buceta sangrou 7 dias, o tempo de Deus fazer o mundo, desfez tudo que havia nela. Nunca mais pôde se recuperar da dor. O nó na garganta as pernas trêmulas a gagueira, tinha medo dele, tinha medo de ser estuprada de novo.

Você não sabe o quanto ser mulher é bom.

A pele negra nunca disfarçou as marcas roxas, gostava de pensar nelas como a arte do amor, sabia que ele a amava, que nunca ia deixar-lhe e dia sim, dia não isso a amedrontava, mas o amor dói, dizem os poetas, o amor dói e ponto. Cinco pontos no supercílio. Ele não queria me atingir... Foi sem querer, escorreguei e bati o rosto na maçaneta da porta, doutor!

Você não sabe o quanto ser mulher é bom!

Entre os olhos podia contar a luz dos postes na rua, Pensava em contas de multiplicar, tinha acabado de aprender. Enquanto as mãos dele passeavam pelo meu corpo. Eu continuei fingindo que estava dormindo, porque eu nunca senti tanto medo, intimamente eu sabia que aquilo era errado e por isso mesmo sabia que era minha culpa, minha máxima culpa, eu devia ter gritado. Mãe ele é tarado. Não fale sobre isso.

Você não sabe o quanto ser mulher é bom?


10 de mai. de 2015

Matrimônio

Eu posso fumar. E sua mãe não vai sentir o cheiro de cigarro na sua roupa? Não, ela fuma. Mãe, assaltaram minha casa! Estou chegando aí assim que amanhecer. Mãe eu estou com medo de dormir sozinha. E como você vai fazer quando eu e seu pai não estivermos mais aqui? Mãe, eu fiquei com medo de estar grávida...Deixa eu te contar um segredo, mamãe. Mãe, acho que eu estou doente. Mãe, você não entende, eles não gostam de mim porque eu sou feia. Mãe, eu estou bêbada. Mãe eu estou apaixonada por uma menina. Sim, o que você espera que eu diga...? Amor é amor. Mãe, as vezes eu tenho medo de estar ficando louca. Todo mundo tem medo, Leãozinho. Mãe, você enviou a minha carta para Eliana? Mãe, me limpa! Mãe, o que tem depois do céu? Mãe, brinca de boneca comigo? MÃE, MÃE, MÃE, EU PASSEI MÃE! EU PASSEI NO VESTIBULAR MÃE! Eu sabia que você ia passar. Só você não sabia. Mãe, promete que você não vai me deixar nunquinha? Mãe como a senhora tá? Mãe, você sabe onde está...Você, não, senhora. Você tem que me deixar ter minhas próprias experiências, minha mãe! Mãe, como é que faz arroz? Mãe, me coça! Mãe, eu vou pintar o cabelo. Mãe, vou colocar um piercing no umbigo. Mãe, vou fazer uma tatuagem. Mãe, eu sei que ela é sua mãe, mas você precisa se acalmar, porque ela ainda não morreu.  Mãe, você lembra que mesmo quando você me fazia chorar, eu chorava abraçada na sua perna? Eu sinto que ainda sou esta.

5 de mai. de 2015

Escrevo longas cartas para ninguém...

Olá, estranha

Sinto sua falta. Eu sei que você está aqui o tempo todo, sei que você emerge, sei dos seus retalhos. Mas eu sinto sua falta. Daquela menina despreocupada, sonhadora e esperançosa, que você costumava ser, e tão pretensiosa e franca que era capaz de reproduzir as maiores bobagens políticas. Sinto sua falta e sei que não sou só eu. Outros também sentem a sua falta. Falta do seu jeito de falar, calmo e pausado. Do seu olhar nos olhos. Quando você começou a falar de maneira tão insegura? Justo você que nunca gaguejava? Justo você que queria fazer, vejam só, Direito. Quando você adquiriu essas olheiras e esse olhar perdido ? E esse medo, quando? Ninguém teme por você, mas eu temo. E sinto saudades, quantas vezes sepultei seus gostos e codinomes, mas nunca tive medo da iminência da sua morte. Não me refiro aos ciclos, não falo em borboletas. Falo em mudanças tão profundas que ignoram a lagarta e o casulo. Acho que você deveria voltar para casa, ela fica mais limpa e organizada quando você está. O que está acontecendo com seu cabelo ? Quanto tempo tem que você não faz as unhas? Não pelo patrão (bos)estético do patriarcado que eu combato o tempo todo e sobre o qual não vou me alongar a falar, porque isso parece levar você para, ainda mais, longe, mas pelo cuidado de si, Você tem cuidado de si?  Pelos momentos de dedicação ao próprio corpo? Eu sei e mais ninguém sabe que você não está indo no médico, como você pretende cuidar de alguém assim? Quando você passou a insistir sem fé nenhuma? Cadê as velas? A responsabilidade com o Ori? Eu e Iansã sentimos sua falta. Onde você se meteu, menina? Que eu não te vejo mais? Tenho te procurado e não sei dizer em que espelho ficou perdida a minha face.

Amor, AR.

22 de jan. de 2015

Carolina

Eu sou apenas um pobre cantor, Carolina, mas esses olhos, que olhos, Carolina, muito expressivos, com as dores conservadas, bálsamo benigno, signo de paraíso astral, esses olhos, Carolina, de menina esses olhos, carregam contornos de mulher. Minto. São olhos que olham como os olhos de menina olham, com curiosidade e medo, mas gostam feito olhos de mulher. São olhos de mundo afora, Carolina, olhos que não se fazem mais, raríssimos, feito o por do sol quando se está aflito e sozinho, feito o nascer do sol entre as fumaças de um cigarro mentolado e um amor que não se cura, feito o barulho do mar misturado com as tuas lágrimas, feito te ver chorando de dor. Um espetáculo. Tem uma beleza, uma bossa. Em dias de verão, um sambinha quente O som animado e arranhado e meio rouco do dance music quando a noite cai. Seus olhos são pura sinestesia. Carolina, queria poder pegar entre os dedos o conteúdo da tua poesia, fazer verso. Não consigo, tem também em você inteira qualquer coisa que sempre me escapa, me engasga. Queria, Carolina, te cantar as coisas mais lindas, enfeitar teus cabelos com os olhos dos meus sonhos. Dos seus sonhos. Queria saber cantar, só pra cantar para você e roubar um sorriso-Carolina. Mas não sei. Então eu te digo uma duas dez vezes, Carolina: Te amo. E você tem que acreditar, você precisa acreditar. Viu? Você precisa acreditar. Te ver acreditando me dá vontade de acreditar também. Carolina, nos seus olhos guarda a dor de todo esse mundo, mas guarda também a esperança dos novos dias, por que eles já estão aqui. E vem, Carolina, vem sim, vem com teus sons, teus ais, teus dons, teus mas, vem, corre que agora é brincar de viver.

24 de dez. de 2014

Solidão

O silêncio nas paradas, 
Nas paredes velhas fotos 
Desbotadas
Feito o sonho que a gente sonhou
O sono que a gente dormiu
A vida que escupiu e escarrou
E tudo mais que nem brotou, 
Feito
A poesia que do papel não saiu
E por isso cala.

18 de dez. de 2014

Achados e Perdidos

Trabalhava ali já há alguns anos, ao seu redor todo tipo de coisa inusitada cheirava a poeira e esquecimento. Ela também cheirava assim. Suas roupas comuns, seu rosto comum, seu cabelo comum, nada em especial chamava atenção nela, exceto por um eventual faiscar dos olhos castanhos, ninguém a acharia especial ou mesmo atraente. Entrou ali por concurso, mas não foi concorrido, porque ninguém trabalharia ali mesmo. Foi a primeira e única aprovada. Não tinha chefe, não tinha colega, estava sozinha ali.
No seu primeiro dia um bilhete com coordenadas colado a parede lhe indicaram como cuidar. Bastava, basicamente, sentar e esperar. Sempre aparecia alguém, ou coisas novas na bancada da sala velha. Mas não entendam mal, era uma sala ampla, cabia muita coisa ali, as paredes, agora amareladas, deviam ter sido belas paredes brancas um dia. As prateleiras que tomavam toda a sala continham todo tipo de coisa numerada, devidamente etiquetada, ensacada e perdida.
Tinha um palhaço de porcelana na quinta prateleira à esquerda de um leão, tinha lá no alto um anel presente do pai de uma debutante, vários sentimentos, nem sempre bons se debatiam dentro de globos sangrentos e algumas pessoas inteiras até se amontoavam no fundo da sala. Bom, precisava ser uma sala ampla. Na porta da sala tinha uma placa modesta de madeira entalhada com letras douradas: Achados e Perdidos.
Ela não tinha nome, não precisava de um nome, era a moça dos achados e perdidos, pensava, enquanto organizava um par de falsos amigos junto das outras pessoas, que lhe bastava ser chamada assim, achava até (oh, silly girl) poético. Todo final de ano chegava um carregamento novo de coisas nem sempre velhas. Nesse carregamento, em especial, todas as coisas vieram sangrando. Fazia muito tempo que a moça dos achados e perdidos não recebia uma remessa tão sangrenta. E mesmo ela que não era afeita as lágrimas, chorou.
A moça dos achados e perdidos não conseguiu um bom lugar para as perdas e rezou pela primeira vez que alguém fosse ali fazer uma visita e achasse, quase sem querer algo que o pertencesse. Sabia, entretanto, que aquela sala não funcionava assim, e também que não estava aberta à visitação. Na verdade, a sala no topo do prédio mais alto do mundo era um sepulcro, não um museu. Por isso ninguém ia ali e as perguntas repetidas pelas pessoas amontoadas ao fundo nunca eram respondidas. Por isso, por que quase nunca há encontros, só perdas, é que a última remessa sangrava.
Sangrava por que cada perda drenava o sangue de quem perdia, sangrava letras e se você olhasse de perto: poesia.

15 de out. de 2014

Eu não vou mais lhe pedir que fique

Os novos ares me envolvem e eu sinto medo, mas continuo seguindo, eu pus os meus pés no riacho, e acho que não os posso tirar. Eu não vou mais lhe pedir que fique, eu não vou mais pedir para ninguém, nunca mais "Não solta da minha mão", as vezes é da vida o "Vai", também. Eu estou satisfeita depois de tudo, eu sei que eu não fui a primeira a soltar a corda, embora tenha experienciado situações limites que quase eliciaram isso. Vai, vai mesmo. Agora eu posso ver, eu sei, vai ser melhor assim, melhor pra você, melhor pra mim. Acho que do jeito que a gente ia, e a gente ia mal, eu ia te perder de qualquer jeito. Espero que entenda, um dia. A minha decisão múltipla pelos silêncios foi por que tem coisa que não deve ser dita, acho que se eu te dissesse tudo o que eu penso e sinto você não poderia aguentar. E acho também que o que eu sinto não é sua culpa, então é melhor mesmo fazer silêncio. Eu te pedi algumas vezes para ficar, e tentei enfeitar seus sonhos, colocar poesia nos seus dias e tolerar seus vícios, suas manias, suas faltas. Não por que eu preciso de você, mas por que eu gosto do seu jeito, eu tenho uma queda pelas histórias tristes, mas acho que essa ficou triste demais. Nunca pensei que eu fosse sentir ódio de você, lembra? Eu não devia ter te dito isso também, mas era como eu me sentia naquele dia, acho que era por que nos meus sonhos de menina você ainda era Good day, Sunshine. E é muito difícil perder alguém que a gente ama. Principalmente quando a gente ama alguém de maneira tão despretensiosa, eu te amei. Acho que eu ainda te amo, por isso eu preciso te dizer: é melhor que vá. Eu apelei para tudo, até pro seu buda, pra sua mística. Não adiantava, não dava mais, tinha esse nó na garganta que não saia, não importa o quanto eu me esforçasse. Você sabe que eu me esforcei. E eu nunca disse que você me decepcionou, embora eu tenha me decepcionado comigo mesma quando percebi que você já não era a mesma. Acho que eu não posso desistir, só de pensar em desistir eu me envergonho, sabia? E eu tive medo um medo obsceno de morrer, mas nenhuma possibilidade de morte pode me impedir de fazer tudo que eu tenho pra fazer. Somos tão diferentes nisso, né? Eu sempre tenho muitas coisas pra fazer e isso quase me enlouquece, eu nem sei bem o que fazer, por onde começar, mas eu tenho. Você não, mas quando você faz - e faz! - é sempre um primor. Você não sabe, mas você é um primor. Acho que eu te amo como a gente, especialmente nós que somos artistas, amamos certas obras inacabadas, certos brancos no fundo da tela, mas eu não posso mais, sabe?  É melhor que vá, mesmo. E eu não quero estar aqui para te ver ir, por que eu sou mesmo muito covarde e por que pensar nisso me mata, mas eu sei que é melhor assim. Melhor pra você, melhor pra mim. Mas olha, quando a saudade bater, apanha e vem, volta, eu te cuido, faço aquele chá de maçã, sigo sua dieta, sua seta, sua sina. Por que você é linda, sabia ? A mais linda que eu já vi, mesmo e ainda que tenha que ir. Desculpa ficar melancólica, eu sei que você odeia me ver assim, embora seja tão normal, quando tudo vai mal. Não vamos mais combinar o batom, mas fica o tom, a cor. Os segredos que eu sei de cor, os pensamentos que li e tudo aquilo que eu não sou e que você não é. Vai logo, poxa, sem suspense, eu odeio assim, você me conhece. Vai ser melhor assim, eu juro que vai, lembra quando eu jurei que você ia ser feliz, parece que eu falhei, mas não foi por que eu quis. Eu tentei, eu juro que tentei te proteger, mas o mundo é hostil, e eu não posso mais. Eu não posso mais lidar com tudo, eu vejo, agora eu vejo, que eu também sou fraca. Se você tivesse ali, justo ali naquele lugar que sempre foi seu, "my spot", você juraria que não e eu riria e a gente passaria horas falando de coisas semifusas e a fumaça quase me sufocaria. Eu queria, eu juro que eu queria, mas eu não posso, sinto muito. Diga a mãe que você vai chegar, talvez antes, talvez sem mim, mas você vai. Porque o que você quer, você tem. Vai ser melhor assim, melhor, eu juro, vou tentar acertar dessa vez, melhor pra você, melhor pra mim. Tem espaço de sobra na casa e no coração, mas eu não vou te pedir que fique. Voa, take these broken wings and learn to fly. Fly.

2 de out. de 2014

Baculejo

A morte espreita na quebrada
Vem marchando ensaiada
Sob a pisa dos gambé.
Vem de coturno, maltratada
Mal paga, esfarrapada, 
Muito dente, pouco pé, 

Feito cachorro raivoso. 
metido num balé doloso
Dança com os moleques pretos
A valsa morte de todos os guetos
E não há grito de dor algum
Ou fuga
Tudo é lugar comum
O cotidiano refuga 
A democracia deliberada

Olha aí o meu guri
Mais um guri morto na vala
Mais um guri de que não se fala
A quem não se anuncia
Um guri cuja a sentença vida
Está nas mãos de quem policia. 

A morte espreita na quebrada, chega de viatura 
Vem calada. 
A morte espreita na quebrada 
E depois dela o nada. 
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Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !