26 de jan. de 2013

A outra

Eu ouvi o que disseram, quando disseram que eu merecia o coração partido que você me ofertava. Partido e repartido, me senti julgada, humilhada, exposta, nua. Me senti meio Ana Carolina, elevando a dor, também. A dor que eu metralhei em todas as direções, porque eu sou forte e sou por acaso, e precisava depositar o chumbo da mágoa.Quando eu te vi em outros braços, meu mundo se fez em pedaços e todas as teorias de conspiração fizeram sentido.O mundo estava sendo tomado pelos soviéticos e cairia uma bomba x, y, z ou começaria ali um apocalipse zumbi, porque eu me julgava importante demais, especial demais e única demais, mas eu não sou, e qualquer tragédia seria mais bonita do que descobrir que tudo que eu acredito também pode ser relativo, que as pessoas e os beijos são outros, como foram outros para você e que isso também não mudava nada. E eu preferiria perder meu cérebro para o zumbi, porque é mais fácil lidar com isso do que desconstruir o alto muro da mono-estrito-gamia pretensiosa que nos cerca. E pagar o alto preço dessa descoberta contra ortodoxa de que não somos únicos para ninguém e que também não nos pertencemos. E continuar vivendo um relacionamento, um amor, um caso. Não porque eu tenho que vivê-lo, não porque é assim que eu devo vivê-lo, mas porque é assim que eu tenho vivido, é assim que é para mim. E me faz bem vivê-lo dessa forma, onde não sou nem és. Somos.

21 de jan. de 2013

As Flores de plástico não morrem.

Tinha algo diferente nos olhos de Gilda. Talvez fosse a morte, angústia de quem vive. Talvez a solidão, fim  de quem ama. Não, não era. Era uma coisa doída, doída como o vinho tinto que corria nas suas veias, e tal como este, era de uma safra boa. E velha.
Gilda já não tinha mais 18 anos. Quantas pessoas podem se orgulhar de renascer em tão tenra idade? Gilda estava velha para si mesma, mas seus interesses pareciam cada vez mais juvenis. Andava falando em mudanças, em maturidade, em sopas, chás e dores lombares que ela não imaginaria nunca sentir, em angústias, tristezas e comoções. Gilda aprendera a chorar, e fez do choro sua rotina, as dores do mundo lhe açoitavam a cara marcada. Roubavam a beleza carmim dos seus lábios e imprimiam neles uma dor, uma mentira ou uma prece. Gilda estava velha. Mas nunca esteve tão jovem. Sentia uma leveza n'alma e não sentia falta da lama. Não precisava chafurdar na lama, se reconhecia lama, sem tocá-la. Lama, barro, areia, merda. De onde viemos e para onde vamos. Sentia o vinho, sangue, tinto, pulsando nas veias já não era mais de si, era do mundo. Sempre fôra o mundo, embora estivesse persistindo à sua margem, às margens de si. Embora houvesse se retirado, o mundo que lhe criou, a pátria, pútrida, que lhe pariu lhe chamara de volta. E de volta viveu. Em volta de, círculos e curvas que esvaziam os sentidos de ser.

13 de out. de 2012

Epitáfio.

Caminhar em um cemitério é como dormir sem descansar, não tem paz alguma. O ambiente silencioso, as flores reminiscentes de coroas muitas, caídas no chão, ou simplesmente apodrecidas no túmulo, roubam a paz dos caminhos. Para não falar dos mortos, enterrados sem possibilidade de retorno. Os mortos lembram os meus, com pesar.
Sempre tem túmulos frescos e novas covas. As inscrições eram variadas, desde " amor de irmão " até " tempo perdido ", revisitar o meu cemitério nunca é fácil.
É lembrar dos sonhos que morreram no caminho até aqui, e alguns eram tão joviais que nem deveriam ter sido brutalmente assassinados. É lembrar dos afetos que morreram de tempo ou de jeito. É lembrar sobre tudo das expectativas mortas, que me cravaram o peito de decepções. É lembrar de toda angústia jovem de vinte anos, e certamente é me deparar comigo mesma, um dia, junto a tudo que já perdi.
Méritos também foram enterrados lá, e monstros, e o meu peixinho dourado. O meu peixinho dourado jaz na cripta mais imponente, ao lado de Megan, a gata. Ora que ironia. Ambos mortos pela mesma pessoa, dezenas de vezes.
E em uma última cripta, de mármore branco e arabescos : Gilda. Aquela que me deu a possibilidade de vir a tona com meus próprios pés. E braços e desbravar abraços e enlaços, Gilda que me ensinou a ir sendo, Gilda tão arraigada em mim e que agora se despede me provocando um sorriso. Você vai me fazer falta, mas eu vou te fazer viva, eu prometo.
Pegar uma flor no chão do cemitério. Fazer um pedido. Ir embora.


22 de set. de 2012

Margô.

Se amasse a coisa ultima do seu ser tal como amava a Margarida, há muito teria sucumbido. Não lhe sobrava espaço para amar aos montes, porque em Gilda tudo era entrega. O tempo foi lhe dando um batom mais escuro, e uma tez mais suave. O tempo lhe dera uns olhos descansados e ouvidos mais pacientes. O tempo lhe roubará os passos de música, mas não a alegria da música.
Nunca pensou nas coisas para além da sua efemeridade e, desta forma, nada nunca lhe pareceu temerário. Até a Margarida. A Margarida era o começo e o fim, lhe diria se acaso a perguntasse.O excesso de compromisso que lhe endureceram os pés, foi mais generoso com seu coração. A responsabilidade que demandava cuidar de uma flor, as vezes a enlouquecia. E ela se colocava de cócoras a maldizer e resmungar. Mas quando voltava para Margô, e a olhava de perto, era maior. Sonhava mundos, que só Margô lhe dava, que só o paradoxo de ser flor poderia conceber.
A Margarida era a coisa ultima da menina, era a primeira coisa que tinha em seu peito de mulher, era a coisa que findava em si tudo que tinha. E começava em nós.

6 de set. de 2012

Se eu quiser falar com Deus

E Deus, hein ? 

Será que Ele já sentiu inveja? Ou medo ? Ou dor ? Uma dor tão insuportável que não cabia na palavra ? Será que em todo o processo da criação alguma vez ele se sentiu sozinho e quis ter um amigo por perto ? Será que Deus tem amigos? Será que eles estavam lá sorrindo amarelo quando ele precisou ? Será que Deus já se sentiu  feio, ou gordo, ou já sorriu quando queria chorar ? Será que ele já teve que engolir sapo ?  E choro ? Será que Deus já teve um nó na garganta, ou já sentiu frio ou vergonha ? Será que Deus se parece comigo e é egoísta? Será que ele é meu pai e não me deixou cair em tentação, e se ele for, por que eu já caí tanto ? Será que Deus estava comigo quando meu coração estava partido ? Será que Deus é comigo na minha imperfeição ? Será que Deus viu tudo que eu fiz ? 

Onde ele está agora ? 

26 de ago. de 2012

Baby, há quanto tempo

Eu conheci um rapaz de cabelos vermelhos, olhar distante e timidez latente. O conheci no Começo de tudo, no Gênesis. 
No primeiro dia eu pedi que ele me comprasse fichas para o lanche e ele aceitou timidamente, depois o convidei para sentar comigo. Não podia supor que meu gesto fosse o raiar de uma grande amizade, talvez se eu pudesse supor qualquer coisa da importância dele na minha vida, não teria sido tão arrogante. 
No segundo dia fomos para uma grande festa, nos encontramos quase por acaso e nos divertimos com seu silêncio atordoado. Já não havia um dia em que não sentássemos juntos.
No terceiro dia veio a raiva e o medo e a descoberta, veio a praga, ele me falou que eu deveria me unir a ele. Eu me uni a ele, me aproximei do seu forte, da sua vida, sua história, seus amigos. Seus amigos foram os meus, as histórias nossas, a vida dividida pela rotina colegial.
No quarto dia vieram os desafios e os desamores. Também veio o afastamento e o medo ainda nos espreitava silencioso, como você foi outrora, sobrevivemos.
No quinto dia veio a morte, a dor da perda foi vivida por 30 ou mais almas. Todos morremos com ele. Chamam de empatia, mas era só amor e dor e perda, a sua perda que foi a minha perda e ainda é. Nunca a dor me foi tão visceral e escancarada, te entreguei um diário, te entreguei as promessas, me fiz forte para ser a sua força, me fiz presente para ser seu presente. 
No sexto dia veio a bonança, o céu azul das coisas vindouras se abriu em um sorriso escancarado, como o nosso. Vencemos, vencemos a dor, o medo, o preconceito, o nosso próprio preconceito. Vencemos as grades e tudo que nos prendia. Vencemos de um jeito tão bonito que até a inveja se condescendeu. Ela não chegou em nós, e nada de ruim poderia se abater, tínhamos os seus ensinamentos: Coragem, Força e Fé. 
Aqui, do auge do sétimo dia desfrutamos da vista. Não se sabe o que acontecerá daqui para frente, mas temos um filho, um sonho. Certamente estaremos juntos. Você é o irmão que eu sempre quis, você é maior até, porque eu não sei sonhar com alguém tão bonito.  

 Baby, baby, I love you 




Para ler ouvindo Baby

19 de ago. de 2012

É você que tem

Quando eu te vi pela primeira vez, tal como você era, a minha vida estava uma bagunça. E você me veio com os seus olhos vazios e o seu medo e pela primeira vez eu não precisei que ninguém me dissesse que eu estava apaixonada. Tive medo, medo de seguir em frente, medo de cair, medo de te machucar, mas arrisquei. Arrisquei porque quando eu te vi verdadeiramente eu me perguntei, também pela primeira vez : "Porque não?". E não "Porque não eu?".
E você me amou primeiro, você me amou quando nem eu amava a mim. Você me amou no meio daquela bagunça e segurou minha mão e me confortou  mesmo quando eu não mereci. Eu te desmereci mesmo antes de te amar, porque eu não merecia a mim. E você esteve ao meu lado e me propôs uma margarida... Na minha fossa. Te dei várias, coloridas, vivas, secretas. Porque a gente dá coisas vivas a quem ama, para ver o amor crescer.
Mas você é grandiosa, você me dá tudo que eu sonho, e faz das tripas qualquer coisa, para me fazer feliz, porque você me ama. E eu sinto que você me ama, eu vejo que você me ama e eu sei que você me ama.
Porque a gente sabe quando a gente é amada. A gente sabe quando não está sozinha.
E então por qualquer coisa me inquieto e me deparo com coisas que fazem meus sentimentos ficarem em suspenso. E penso : Ora, como saber se é amor. Como saber do meu amor ?
E hoje não é no contrate do desamor que sei que a amo.
É no desespero, na ternura, no cuidado, no dividir-se, repartir-se, reviver-se, no amadurecimento contínuo e conjugado. No nós. Na intimidade, na falta de pudor, na proximidade e na inquietação. Na suspensão de sentimentos, no ciúme, no medo da perda. Na elaboração de mim.
Posto que não vejo a mim, só, vejo-nos.
Não sei se um dia eu vou poder te contar o que você me deu, mas eu já mandei embrulhar, já chamo de meu.
Porque você me deu a mim, como seu sempre sonhei ser e nunca saberia ter sido. E cada pedacinho desse eu que você quem viu em mim, e me mostrou pelos seus olhos - agora cheios de vida -,  cada mínimo pedaço, ama você.
É fácil amar quando é fácil, e é bom. Mas ainda bem que nós soubemos nos amar em plena tormenta.

2 de ago. de 2012

Amigo, que ironia dessa vida

Amigo é feito de sonho e espelho
Reflete de nós o que queremos
E mais, o que admiramos
Amigos se espalham
Nos anos, planos, sonhos,
E vagam pra outros tantos.
Acontece às vezes do reflexo mudar,
Acontece da gente se ver diferente
E rejeitar o amigo que no espelho era a parte ausente.
Mas tem amigo, além espelho. 
Amigo moldura. 
A amizade nunca acaba, nem acaba a ternura.

30 de jul. de 2012

Vida bossa, idade nova.

Um canto doce, um cheiro de temporal. Eu guardo em mim, um Deus, um louco, um santo, um bem e um mal.


Das travessias idas, das novas vindas
Do que sobreviveu aos naufrágios
E do que revolucionou sufrágios,
Sou das paragens do frágil.
À revolução da beleza e da poesia,
um brinde, uma bossa clamava.
No raiar do dia de Nanã,
Fez-se em minhas primaveras, amanhã.
Um samba de grito entoava.
Meu coração pondera o peso
Do samba de chula do recôncavo
de pés descalços e descalça escravidão.
E também alegra-se ainda com a bossa
Branca elitizada, desta estação.

8 de jul. de 2012

Far far

- Eu ? Eu queria ser artista. Estar no palco, viver de aplausos. Queria ser uma dessas pessoas que pintam, ou dançam, ou cantam, ou criam. Mas nunca fui realmente boa em nada disso, sou melhor produzindo que atuando, criticando do que escrevendo. Aí você vai pondo o sonho de lado, e vai fazendo escolha, traçando novos caminhos, primeiro era a arte, agora é a moda, depois o direito. Tudo pelo ralo. A gente aprende a ir pondo os sonhos de lado, mais isso tem um preço, primeiro a gente perde o brilho, depois perde o gozo. O mundo foi ficando cinza quando mataram a arte em mim. As coisas, antes surpreendentes e dignas de sorrisos e aplausos, foram ficando tortas, murchando e morrendo. Aí me disseram que eu podia escrever. Que eu era capaz. E eu senti de novo surgir em mim cor, escrever para mim sempre foi um jeito de me anunciar. Uma lanterna, para um afogado. Escrever era um jeito de contar o mundo de mim para mim, e relembrar das cores. Eu tinha um ateliê, era um quartinho na minha antiga casa. Lá tinha livro, tinha fada, tinha tinta, tinha lápis, tinha papel e tinha os sonhos de quem um dia fui. Lá eu inventava até amigo, pintava, brincava, criava, lá eu era livre. Fui feliz naquele lugar, quando o visito nas minhas memórias sinto novamente o cheiro da comida no fogo e das tardes coloridas, tal como as paredes. Era para eu ser artista. Mas a pior tristeza da gente é crescer, porque crescer implica em aprender deixar de lado. Penso que por isso a gente aprende a chorar quando cresce e por isso também leva tanto tempo. A gente vai deixando a dor de lado até ela não caber mais na gente, até ter que sair. E mesmo quando ela sai, sai contida, lágrimas silenciosas no travesseiro a noite, quem nunca esteve nesse lugar ? Para me encontrar tive que reaprender a sentir dor, chorar quando doía, falar a verdade, não deixar de lado. Porque enquanto eu exercitava o que esperavam de mim eu era dura demais comigo e com os outros. A verdade é que eu ainda sinto dificuldade de dizer o que eu sinto, ainda preciso impostar a voz quando estou nervosa e ainda me assusto com arroubos de emoção. Gritos me deixam petrificada. E apesar de tudo isso sou atuante, assumo minhas causas e causos. Penso num mundo melhor, também, mas não me acho melhor por isso. Continuo seguindo. Sendo malabarista da vida, equilibrando, para me equilibrar. Acho que de tanto não acabei virando sim, artista.

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !