23 de fev. de 2012

Minha senhora,

Uma amiga de longas datas, rainha de muitas paragens, veio a mim em pranto, de coração partido. Era uma mulher fascinante, forte, real em todos os aspectos de si, e da realeza. Me sorria em meios as lágrimas, tentava afastar a dor. Se você pudesse vê-la como eu a vejo, ela teria um metro e oitenta de altura, uns olhos da cor da noite que você quiser ver, ou do sol que você puder ser, um corpo escultural, talhado pelas cuidadosas mãos de Oxum, uma pele que parece abraço, um abraço que é feito sorriso, um sorriso que é feito seus cachos bem tratados, e sua coroa feita de cristais de chás e lágrimas a deixava com esse aspecto de mulher feita, vivida. Eu a  amei, minha senhora. Talvez não da primeira vez que a vi, ali a temi. Mas quando ela me deixou vê-la, a amei. Éramos irmãs de condição, ainda somos. Mulheres demais, a amava muitas vezes como uma mãe. Quando eu precisava chorar, ela me abraçava e enfeitava a própria coroa com meu pranto. Quando chorava o mundo inteiro ficava vermelho, rubro de vergonha por si, por tê-la roubado seus cristais. E então, minha senhora, teve esse plebeu. Ele lhe contou histórias de mundos onde ela nunca pensou ir, e de pessoas que ela nunca pensou existir, e ele a beijou, e num beijo roubou para si os cachos bem tratados do sorriso da menina-Rainha. Ele nos visitou na corte, dançou e bebeu, encantou a todos, não se sabe se por ser-se ou pela imensidão que os olhos de sol, outrora de gueixa, fizeram notar. Ela o amou em um beijo mais profundamente que o mais profundo mistério do planeta. E ele foi embora. Não levou-lhe a honra porque não saberia onde carregar, deixou um bilhete escrito decepção e um maço de cigarros. Minha senhora, nunca vi nada mais triste, nunca vi Rainha maior. Parecia que a dor lhe espetava as partes e empurrava para cima, sua coroa brilhava como nunca e o mundo parecia feito em rubi.
Minha senhora, minha menina-Rainha não sabia da verdade, não sabia que o Plebeu era cego, não sabia que ele não podia amá-la, porque não podia ver-te, senhora. 
É minha obrigação te contar, senhora, porque a amo. Porque embora Rainha de mim, sou seu amo. Porque, és minha irmã e sou tua, e és mãe minha e senhora das próprias águas, as que embebedam, choram e matam a sede, sinto muito senhora.
Minha senhora, não chore. 


Minha senhora, és de lua e beleza, és um pranto do avesso, és um anjo-verso em presença e peso.


Com amor, Leãozinho.

22 de fev. de 2012

Tive medo e não consegui dormir

Estive por aí, meio só, muito só. Você não viu, ninguém viu. Minha solidão é sólida, agora, materializada nos barulhos externos, na frieza da casa vazia. Da minha casa vazia, a nossa também parece desabitada, eu só saí por alguns dias e onde está você agora? Tirei tudo do lugar, busquei um por fim, ou um portanto, por tanto desencontrei-nos ? Gosto do modo como o silêncio bate nos escuros de mim, mas esse desacompanhar me dá calafrios.

 Esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante. A primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos. 


27 de jan. de 2012

Miudezas de ano novo

 Minha cama era meu reino naquele curto espaço do dia primeiro do ano tal. No meu reino tinha. Tinha gente, dormindo, acordada, sorrindo e dançando. Vulgar falar assim de bosta, mas é o que é. A gente nasce, chora, come e caga por toda vida e morre. Defequei, diria se lhe convém uma palavra quadrada cheia de éfes e quês, mas o certo é dizer Caguei, porque assim o fiz.
Você poderá dizer que é escatológico, e que eu sou uma mocinha, e mocinha não falam de suas intimidades, mas " Eu não tenho vergonha do que eu faço no banheiro " in memorian, Renato, meu guru espiritual que disse. Isso não importa, o que importa é quando e quando foi nos meus primeiros momentos no primeiro dia do ano tal. 

E eis aí, toda a incompreensão que está em mim, que explico, e em você, que merece explicação, se é só botar para dentro e para fora, o quese aproveita? Tudo, ou quase tudo. Porque nem tudo há de se aproveitar, aproveitar tudo não é humano.
Por que a merda é saber que foi-se tudo aquilo que não tinha que ser aproveitado, embora estivesse dentro de você, a merda é saber que tudo por mais delicioso que seja, vira bosta e vai ser devidamente colocado para fora, seja com força ou sutilmente.
De um jeito ou de outro você limpará sua bunda, e irá embora.

A felicidade de cagar é genuína.

27 de dez. de 2011

De cima da pedra mais alta

Fiz, por acreditar, por ter vontade, fiz. E reafirmo o que fiz, faria novamente, igual ? Depende. Se eu fosse quem sou agora, não, certamente não, mas se eu fosse tal como fui, faria, de novo, mais quantas vezes fosse preciso. Hoje, faria melhor, faria antes, diria mais.
De cima da pedra mais alta, hoje, sei que fiz e fiz bem amor, história, filosofia, literatura, fiz laçoes, não nós porque ninguém precisa ficar se não quiser, pessoas passam e tem que passar, mas pessoas ficam e tem que ficar, mas só fica quem você quiser que fique, não porque você é mesquinha e sim por precisar de espaço na casa e no coração.
Laura me perguntou se eu acreditava no amor infinito, no para sempre, disse a ela que sim. Ela sorriu comigo e confessou sonhos antigos de ParaSempresInfinitos, concordei o que a gente ama vai para sempre conosco de muitas formas, mas o sempre humano é finito, é verdade.
Anita me mostrou os dentes, não a Anita de antes, a nova, a que abraça, Anita é uma menina de uns seis anos e alguns meses que corre pela praia chutando areia para cima e construindo castelos, muito intensa e inteligente, muito minha. Ela é filha de Laura, é minha filha também, de muitas formas.
Isabela me arrebatou, devo dizer, ela cresceu de maneiras imcompossíveis em mim, me lembrando sempre do nosso tão antigo bordão, me lembrando sempre de amanhecer brilhando mais forte, mais forte, mais eu. Continuo amando a Estrela, e a Amélie. São duas da mesma, a estrela é a que brilha na minha cama e a Amélie é a que brilha na minha briga, meu abrigo.
Por elas, as duas que uma só são, acredito no Infinto. " O Infinito é um dos Deuses mais lindos "
Laura disse da mágoa da Rosa para mim, Anita leva consigo as dores do mundo, Isabela tem força e graça, mas é Amié que me faz ter Fé e crer, Amié me faz precisar de cama e de colo, Amié me desampara, me faz mover-me em mim, mudar, crescer, Amié me empurra para frente e para mim.
As minhas de mim, as mulheres de mim que de formas e modos diferenciados fazem uma reafirmação do que vale a pena, do que acredito e de quem eu sou.
Derramam o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas.

9 de dez. de 2011

Água da minha sede, bebo na sua fonte.

 O gosto dos lábios, os grandes, os pequenos e aqueles que sorriem, que colados aos lábios meus, de sortidos tamanhos e cores, tem a mesma avidez. E embora com sofreguidão tenha me afastado dos lábios todos, beijo a saudade. Nem era pelo sexo que foi o sexo feito. Era pelo estar ali, por merecer aquele arroubo de intimidade e prazer, porque a gente nada nada nada e nada cinco dias na semana em buscas tão vãs quanto imediatas, mas é no seio nosso que amamentamos nossa sina, sina de si. Zona de conforto é o músculo que tremelica metido entre as pernas outras e ainda não. E ainda não é a comodidade da mentira, nem o conforto do inabitável - para além - nosso. E ainda não é nada disso que o beijo selou com gozo, e o gozo fincou-se em gosto.


         O amor não é da ordem das compreensões.

19 de nov. de 2011

A parábola da menina feia

A menina não tinha nome, era " Ela " aos sussurros maldosos, " Ela" no escárnio dos sorrisos plásticos.
Ela era desgovernada, não bastasse o infortúnio da feiúra, não era aluna aplicada, não era sociável o suficiente para ser boba da corte, nem tinha um grande senso de humor. E embora demonstrasse grande domínio retórico, nunca era convidada para bate-papos informais, senão pelos outros que como Ela, eram os inapropriados para convívio. Eles eram também, a maior parte do tempo, seus amigos.
Ela passou pelo ensino fundamental, aos trancos e barrancos, no ensino médio continuou medíocre.
Desgovernada, inconstante, mas tinha talento diziam, para bajular aos outros, a fizeram de macaco de auditório. Ela, tomada pelo arroubo de ter encontrado seu lugar, foi lá, fez o que lhe pediram, e fez além. Mostrou seu potencial, disse-lhes de contos e histórias que não conheciam. E ainda que não esperassem, Ela, a menina feia, desgovernada, imoral e inconstante foi amada, e aplaudida, Alguém amou Ela, mesmo feia, e Alguém deu para Ela um coração em Sol. Então Alguém deu a mão para Ela, e Ela se viu capaz de voar.
E voou, um longo e cansativo vôo, desses que passarinhos de bico curto e asas breves não se arriscam voar. E achou um novo lugar para si. E se apossou desse lugar. Lá Ela não era Ela, lá era Eu e lá Alguém era Estrela, Luz, Nós. 
 Lá não existiam artifícios, mas existia a mim, de cima da pedra mais alta, do topo mais alto do mundo. Eu, que era feia e condenada pelo que nunca dependeu de mim, Eu que superei expectativas, até as minhas, Eu que sou o mundo de Nós.

29 de out. de 2011

Primavera nos dentes

Seu sorriso me provoca,
O que nunca antes sucedeu,
                                 [ Só de lembrar do seu risinho,
                                    o mundo inteiro amanheceu.]
Posso até pedir que fique mais um poquinho,
Mas você é feito bichinho,
                                 [Arredio, que foge pé-ante-pé,
                                                           devagarzinho]

E eu fico com o amor estampado na cara 
Que poesia quando dá no mundo é rara,
E nem todo mundo pode ver.
Mas, quem ler esse poema bobinho,
E entender só um pouquinho
Como o amor cresce e floresce rapidinho,
Entenderá a verdade sobre a primavera,
Que se espalha e toma todos os dentes.

19 de out. de 2011

Sou sua mulher.

Se todo dia abro os olhos e pergunto pro tempo " Até quando? ", e ele me reponde " Acalma-te, criança " sei, e simplesmente sei, pelo Tempo que devo ser paciente, e então quando estou contigo e revelo toda minha paciência e falo pro Tempo " Acalma-te, criança ", e ele feito menino bobo sai esbaforido e me berra de volta " Até quando ? ". 
E então, mesmo que o tempo brinque de cirandas, ainda nos divertimos as custas dele, e ele não nos furta a ternura. Não nos falta compreensão, seu Tempo.
Se todo dia me pergunto se te amo e quanto, e sei pelo não não te amar e nada, que te amo infinitamente. Ou seja, se sei que te amo por contraste racional, por medo de perder todos os dias - quando eu estou longe de voce - são nos dias em que estou contigo que sei que te amo pelo não saber. Sei quase que intuitivamente, pelo deslizar e mãos, pelo beijo enternurado, pela paixão, pelo resgate dos sentimentos primórdios que nos trouxeram até aqui, e mesmo nos dias mais lascivos, pelo meu sexo que é todo coração e pulsa pela sua simples presença.
E então, mesmo que nesta ciranda do tempo nos falte abrigo, ainda poderemos recorrer a nós. E isso é muito mais do que o Tempo sonhou um dia em ter, e nem mesmo ele é capaz de furtar. 

15 de out. de 2011

Imperfeição

Não quisera ser tão misógino, mas por interesses maiores o destino apalpou-lhe os cabelos e interessou-se por ele. Dissertaras sobre o universo, sobre as coisas em que confiava e nas quais acreditava. Esqueceu-se apenas de ser compreensivo e piedoso com o mal. E é esta bondade que lhe cerca as narinas ? Cadê o olfato cheio de suficiência de palavras sonorizadas gramaticalmente corretas e semblantes sobrepostos a oscilações ora rígidas e ora benevolamente simples? 
 Sobre estes passos o julgar do pensamento alheio sobrecai sobre tu, sim. Que esqueceu-se da manhã ensolarada para condenar a noite fria. Não defendo o erro, protesto o julgamento. O seu vácuo não existe por minha culpa. Nem ao menos cheguei ao presponto de perfeição que tentara-lhe muitas vezes, E a credulidade com a qual sempre te vejo aproximar-se, cheio de armas preparadas e postas a fogo, me lembra muitas vezes daquele pressentimento bem apertado ao braço chamado Estrela de Davi. Esquecerei apenas de que a você tudo pertence, no momento em que julga-se tão sóbrio. 
         Obrigada pela indigestão, é frio o não entender.
Rafael Sady.

Sabe, senhora, foi sobre mim. Mas bem que poderia ter sido sobre você.


11 de out. de 2011

II

Bosque solidão, qualquer dia de Outubro.


Amie,


A primeira vez que gostei de você, porque de diversas formas já gostei de você muitas vezes antes de te amar, foi quando estávamos sentadas no meio do mundo inteiro, num momento, e eu te segredei toda dor. Você ouviu, atenciosa, crédula, ouviu e não disse nada sobre o que eu te falava, mas perguntou sobre a guerra. Você quis saber de que lado eu estaria, quando a guerra estivesse.
Honestamente disse que estaria do meu próprio lado. Mas você sabia, assim como eu, que desde então eu já estava do seu lado, ao seu lado. Em parte porque sua ausência me angustiava, e por isso vivia te buscando, como confidente e amiga, numa tentativa de que os laços de confiança te prendessem a mim. 
A primeira vez que te odiei aconteceu mesmo antes de gostar de você, quiçá de conhecê-la. Foi quando, na frente de todos, você riu de mim.E eu te flagrei rindo, e te odiei, porque você - como muitos também riram - me fez sentir pequena e desprotegida, tal como realmente era. 
Você feriu minha casca, e então onde eu me esconderia ? 
Eu me escondi em você. 
Ainda me escondo, ainda sou pequena e desprotegida só. Mas contigo não. 
Contigo eu sou o que você vê, e você vê força, coragem, beleza, volúpia, você vê o que ninguém mais vê. E me segura nessa visão, me captura. Acho que por isso tenho tanta fé em você: ninguém nunca me deixou entrar, ninguém nunca me protegeu - inclusive de mim - ninguém nunca me saciou. 
Você me liberta e me rende.
Me liberta porque deixa que meu Bluebird* saia de mim e viva sua plenitude e liberdade. E me rende porque ele só passeia sob o seu olhar atento. 
Funciona para nós. 
Tem funcionado há um ano, um mês e cinco dias.
O amor certamente não é vermelho como dizem os anúncios do dia dos namorados. E nem é tranquilo e cristalino como em " Monte Castelo " o amor é roxo, talvez vinho. Porque é conturbado, paradoxal, bonito, hipnotizante, turbulento e desejoso, viciante, sensual - e novamente paradoxal - mas certamente não é cristalino, porque é humano. 
E não é perfeito. 
Ainda bem, esse lance de perfeição nunca foi para o meu bico.

                                                                    Amor extremado, entre outros sentimentos tão ou mais bonitos.

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !