27 de jan. de 2012

Miudezas de ano novo

 Minha cama era meu reino naquele curto espaço do dia primeiro do ano tal. No meu reino tinha. Tinha gente, dormindo, acordada, sorrindo e dançando. Vulgar falar assim de bosta, mas é o que é. A gente nasce, chora, come e caga por toda vida e morre. Defequei, diria se lhe convém uma palavra quadrada cheia de éfes e quês, mas o certo é dizer Caguei, porque assim o fiz.
Você poderá dizer que é escatológico, e que eu sou uma mocinha, e mocinha não falam de suas intimidades, mas " Eu não tenho vergonha do que eu faço no banheiro " in memorian, Renato, meu guru espiritual que disse. Isso não importa, o que importa é quando e quando foi nos meus primeiros momentos no primeiro dia do ano tal. 

E eis aí, toda a incompreensão que está em mim, que explico, e em você, que merece explicação, se é só botar para dentro e para fora, o quese aproveita? Tudo, ou quase tudo. Porque nem tudo há de se aproveitar, aproveitar tudo não é humano.
Por que a merda é saber que foi-se tudo aquilo que não tinha que ser aproveitado, embora estivesse dentro de você, a merda é saber que tudo por mais delicioso que seja, vira bosta e vai ser devidamente colocado para fora, seja com força ou sutilmente.
De um jeito ou de outro você limpará sua bunda, e irá embora.

A felicidade de cagar é genuína.

27 de dez. de 2011

De cima da pedra mais alta

Fiz, por acreditar, por ter vontade, fiz. E reafirmo o que fiz, faria novamente, igual ? Depende. Se eu fosse quem sou agora, não, certamente não, mas se eu fosse tal como fui, faria, de novo, mais quantas vezes fosse preciso. Hoje, faria melhor, faria antes, diria mais.
De cima da pedra mais alta, hoje, sei que fiz e fiz bem amor, história, filosofia, literatura, fiz laçoes, não nós porque ninguém precisa ficar se não quiser, pessoas passam e tem que passar, mas pessoas ficam e tem que ficar, mas só fica quem você quiser que fique, não porque você é mesquinha e sim por precisar de espaço na casa e no coração.
Laura me perguntou se eu acreditava no amor infinito, no para sempre, disse a ela que sim. Ela sorriu comigo e confessou sonhos antigos de ParaSempresInfinitos, concordei o que a gente ama vai para sempre conosco de muitas formas, mas o sempre humano é finito, é verdade.
Anita me mostrou os dentes, não a Anita de antes, a nova, a que abraça, Anita é uma menina de uns seis anos e alguns meses que corre pela praia chutando areia para cima e construindo castelos, muito intensa e inteligente, muito minha. Ela é filha de Laura, é minha filha também, de muitas formas.
Isabela me arrebatou, devo dizer, ela cresceu de maneiras imcompossíveis em mim, me lembrando sempre do nosso tão antigo bordão, me lembrando sempre de amanhecer brilhando mais forte, mais forte, mais eu. Continuo amando a Estrela, e a Amélie. São duas da mesma, a estrela é a que brilha na minha cama e a Amélie é a que brilha na minha briga, meu abrigo.
Por elas, as duas que uma só são, acredito no Infinto. " O Infinito é um dos Deuses mais lindos "
Laura disse da mágoa da Rosa para mim, Anita leva consigo as dores do mundo, Isabela tem força e graça, mas é Amié que me faz ter Fé e crer, Amié me faz precisar de cama e de colo, Amié me desampara, me faz mover-me em mim, mudar, crescer, Amié me empurra para frente e para mim.
As minhas de mim, as mulheres de mim que de formas e modos diferenciados fazem uma reafirmação do que vale a pena, do que acredito e de quem eu sou.
Derramam o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas.

9 de dez. de 2011

Água da minha sede, bebo na sua fonte.

 O gosto dos lábios, os grandes, os pequenos e aqueles que sorriem, que colados aos lábios meus, de sortidos tamanhos e cores, tem a mesma avidez. E embora com sofreguidão tenha me afastado dos lábios todos, beijo a saudade. Nem era pelo sexo que foi o sexo feito. Era pelo estar ali, por merecer aquele arroubo de intimidade e prazer, porque a gente nada nada nada e nada cinco dias na semana em buscas tão vãs quanto imediatas, mas é no seio nosso que amamentamos nossa sina, sina de si. Zona de conforto é o músculo que tremelica metido entre as pernas outras e ainda não. E ainda não é a comodidade da mentira, nem o conforto do inabitável - para além - nosso. E ainda não é nada disso que o beijo selou com gozo, e o gozo fincou-se em gosto.


         O amor não é da ordem das compreensões.

19 de nov. de 2011

A parábola da menina feia

A menina não tinha nome, era " Ela " aos sussurros maldosos, " Ela" no escárnio dos sorrisos plásticos.
Ela era desgovernada, não bastasse o infortúnio da feiúra, não era aluna aplicada, não era sociável o suficiente para ser boba da corte, nem tinha um grande senso de humor. E embora demonstrasse grande domínio retórico, nunca era convidada para bate-papos informais, senão pelos outros que como Ela, eram os inapropriados para convívio. Eles eram também, a maior parte do tempo, seus amigos.
Ela passou pelo ensino fundamental, aos trancos e barrancos, no ensino médio continuou medíocre.
Desgovernada, inconstante, mas tinha talento diziam, para bajular aos outros, a fizeram de macaco de auditório. Ela, tomada pelo arroubo de ter encontrado seu lugar, foi lá, fez o que lhe pediram, e fez além. Mostrou seu potencial, disse-lhes de contos e histórias que não conheciam. E ainda que não esperassem, Ela, a menina feia, desgovernada, imoral e inconstante foi amada, e aplaudida, Alguém amou Ela, mesmo feia, e Alguém deu para Ela um coração em Sol. Então Alguém deu a mão para Ela, e Ela se viu capaz de voar.
E voou, um longo e cansativo vôo, desses que passarinhos de bico curto e asas breves não se arriscam voar. E achou um novo lugar para si. E se apossou desse lugar. Lá Ela não era Ela, lá era Eu e lá Alguém era Estrela, Luz, Nós. 
 Lá não existiam artifícios, mas existia a mim, de cima da pedra mais alta, do topo mais alto do mundo. Eu, que era feia e condenada pelo que nunca dependeu de mim, Eu que superei expectativas, até as minhas, Eu que sou o mundo de Nós.

29 de out. de 2011

Primavera nos dentes

Seu sorriso me provoca,
O que nunca antes sucedeu,
                                 [ Só de lembrar do seu risinho,
                                    o mundo inteiro amanheceu.]
Posso até pedir que fique mais um poquinho,
Mas você é feito bichinho,
                                 [Arredio, que foge pé-ante-pé,
                                                           devagarzinho]

E eu fico com o amor estampado na cara 
Que poesia quando dá no mundo é rara,
E nem todo mundo pode ver.
Mas, quem ler esse poema bobinho,
E entender só um pouquinho
Como o amor cresce e floresce rapidinho,
Entenderá a verdade sobre a primavera,
Que se espalha e toma todos os dentes.

19 de out. de 2011

Sou sua mulher.

Se todo dia abro os olhos e pergunto pro tempo " Até quando? ", e ele me reponde " Acalma-te, criança " sei, e simplesmente sei, pelo Tempo que devo ser paciente, e então quando estou contigo e revelo toda minha paciência e falo pro Tempo " Acalma-te, criança ", e ele feito menino bobo sai esbaforido e me berra de volta " Até quando ? ". 
E então, mesmo que o tempo brinque de cirandas, ainda nos divertimos as custas dele, e ele não nos furta a ternura. Não nos falta compreensão, seu Tempo.
Se todo dia me pergunto se te amo e quanto, e sei pelo não não te amar e nada, que te amo infinitamente. Ou seja, se sei que te amo por contraste racional, por medo de perder todos os dias - quando eu estou longe de voce - são nos dias em que estou contigo que sei que te amo pelo não saber. Sei quase que intuitivamente, pelo deslizar e mãos, pelo beijo enternurado, pela paixão, pelo resgate dos sentimentos primórdios que nos trouxeram até aqui, e mesmo nos dias mais lascivos, pelo meu sexo que é todo coração e pulsa pela sua simples presença.
E então, mesmo que nesta ciranda do tempo nos falte abrigo, ainda poderemos recorrer a nós. E isso é muito mais do que o Tempo sonhou um dia em ter, e nem mesmo ele é capaz de furtar. 

15 de out. de 2011

Imperfeição

Não quisera ser tão misógino, mas por interesses maiores o destino apalpou-lhe os cabelos e interessou-se por ele. Dissertaras sobre o universo, sobre as coisas em que confiava e nas quais acreditava. Esqueceu-se apenas de ser compreensivo e piedoso com o mal. E é esta bondade que lhe cerca as narinas ? Cadê o olfato cheio de suficiência de palavras sonorizadas gramaticalmente corretas e semblantes sobrepostos a oscilações ora rígidas e ora benevolamente simples? 
 Sobre estes passos o julgar do pensamento alheio sobrecai sobre tu, sim. Que esqueceu-se da manhã ensolarada para condenar a noite fria. Não defendo o erro, protesto o julgamento. O seu vácuo não existe por minha culpa. Nem ao menos cheguei ao presponto de perfeição que tentara-lhe muitas vezes, E a credulidade com a qual sempre te vejo aproximar-se, cheio de armas preparadas e postas a fogo, me lembra muitas vezes daquele pressentimento bem apertado ao braço chamado Estrela de Davi. Esquecerei apenas de que a você tudo pertence, no momento em que julga-se tão sóbrio. 
         Obrigada pela indigestão, é frio o não entender.
Rafael Sady.

Sabe, senhora, foi sobre mim. Mas bem que poderia ter sido sobre você.


11 de out. de 2011

II

Bosque solidão, qualquer dia de Outubro.


Amie,


A primeira vez que gostei de você, porque de diversas formas já gostei de você muitas vezes antes de te amar, foi quando estávamos sentadas no meio do mundo inteiro, num momento, e eu te segredei toda dor. Você ouviu, atenciosa, crédula, ouviu e não disse nada sobre o que eu te falava, mas perguntou sobre a guerra. Você quis saber de que lado eu estaria, quando a guerra estivesse.
Honestamente disse que estaria do meu próprio lado. Mas você sabia, assim como eu, que desde então eu já estava do seu lado, ao seu lado. Em parte porque sua ausência me angustiava, e por isso vivia te buscando, como confidente e amiga, numa tentativa de que os laços de confiança te prendessem a mim. 
A primeira vez que te odiei aconteceu mesmo antes de gostar de você, quiçá de conhecê-la. Foi quando, na frente de todos, você riu de mim.E eu te flagrei rindo, e te odiei, porque você - como muitos também riram - me fez sentir pequena e desprotegida, tal como realmente era. 
Você feriu minha casca, e então onde eu me esconderia ? 
Eu me escondi em você. 
Ainda me escondo, ainda sou pequena e desprotegida só. Mas contigo não. 
Contigo eu sou o que você vê, e você vê força, coragem, beleza, volúpia, você vê o que ninguém mais vê. E me segura nessa visão, me captura. Acho que por isso tenho tanta fé em você: ninguém nunca me deixou entrar, ninguém nunca me protegeu - inclusive de mim - ninguém nunca me saciou. 
Você me liberta e me rende.
Me liberta porque deixa que meu Bluebird* saia de mim e viva sua plenitude e liberdade. E me rende porque ele só passeia sob o seu olhar atento. 
Funciona para nós. 
Tem funcionado há um ano, um mês e cinco dias.
O amor certamente não é vermelho como dizem os anúncios do dia dos namorados. E nem é tranquilo e cristalino como em " Monte Castelo " o amor é roxo, talvez vinho. Porque é conturbado, paradoxal, bonito, hipnotizante, turbulento e desejoso, viciante, sensual - e novamente paradoxal - mas certamente não é cristalino, porque é humano. 
E não é perfeito. 
Ainda bem, esse lance de perfeição nunca foi para o meu bico.

                                                                    Amor extremado, entre outros sentimentos tão ou mais bonitos.

21 de ago. de 2011

Dos eventos do prazer

Incrível como os olhos se entregam fácil, acomodando-se à falta de luz. O resto do corpo, porém, não. O resto do corpo é luta feroz, a fim de qualquer migalha de claridade ou lógica. Rumina, resiste, se desprega da alma. Tem vida própria, arrepios corrente, tempestade.     - Álex Leilla











Gozar do canto,
do sorriso feito manto,
que entorna o caldo pronto
faz sentir, feito lamento, derramar
pleno o tormento: ápice do prazer.

O gozo.

Se apropria do momento e faz firme
feito hora : estranho e lento, em cio
juramento, prece, verso, ceia
e por fim o acalanto
do corpo cru

                                                                                                                                                 E ponto.











4 de ago. de 2011

InPerfeita

Crianças tendem a ser muito perversas.

Tinha medo de crianças, quando havia tempo de. Fazia firula para as demais, dava docinhos, fazia as minhas atividades e das minhas colegas, para não ser deixada no canto da sala porque era feia.
Era dessas tipas amareladas, de cabelos metidos em tranças, sapatos pretos de verniz, cabeçudota. Não era bonita de olhar, meus hábitos escusos - comer meleca, preguiça de banho, ranha interminável - não me ajudavam a me enturmar, falavam comigo pelos doces, mas ainda assim me puxavam as tranças.
Só havia uma menina entre todas a que eu podia apontar, a única que fazia de mim superior na cadeia-alimentar-da-sala-de-aula-númerocentoetrês, o nome dela era ( ou é, não sei, faz tanto tanto tempo ) Luzia.
Luzia era pretinha, como diziam minhas colegas, como minha irmã - eu pensava em segredo - e ser pretinho era mau naquela escola, naquele lugar, naquele mundos, naqueles pais daquelas crianças - e digo neles porque se é criança tudo se perdoa, irônico não ? - ser pretinho era como ser sujo, detentor da mais inlavável sujeira, a de ser diferente. Na sala não me atrevia a dirigir o olhar para ela, tinha medo que soubessem que éramos secretamente amigas e então me tratassem mal. Não via sujeira nela, apesar de. Via a boa amiga, e seus cabelos feito manta de lã trançados com esmero, a pele aveludada e aqueles grandes olhos  pretos, tão pretos que pareciam de verniz.
Dia da roda de leitura era aquela lambança alegre e multi-colorida, leões, tatus, fábulas, contos de fadas, de moças, de princesas, de bruxas, todo o imaginário infantil ali pertinho, quase sólido na leitura dos seus criadores - criar é meio isso, né ? Desentender-se do real, brincar de Deus, ou de Big Bang, e dar voz ao que estava calado em si - Luzia estava mais calada que o normal, quis ir até lá e dar-lhe a mão, dizer que estava tudo bem e que brincaríamos de bonecas horas a fio por toda a tarde, contive meu impulso e tamborilando os dedos na cadeirinha amarela, encarava dispersa o semi-arredondado-quadrado. Luzia andou até o quadro, nesse interim e escreveu com letras bem grandes ( para uma garotinha de 8 anos ): INPERFEITA. 
Primeiro a sabe-tudo segredou para a menina do seu lado e então abafou o riso, crianças tendem a ser perversas. Logo começou um burburinho, e então o burburinho antes pequeno foi tomando forma e virou uma feia canção em uníssono. A professorinha, aflita e desgostosa pedia - em vão - o silêncio e a atenção dos demais.
Quando instalou-se o silêncio temeroso, depois de muitíssimas ameaças, Luzia começou a ler, ali, de pé, com lágrimas nos olhos, e os pequenos e frágei braços tremelicando:

Descobrir pra dentro é caminho pra Deus, descobrir o perdoar é caminho para Deus, se eu perdoar a mim por incomodar-vos estarei com Deus. E eu me perdôo, todos os dias por ser assim. IN-Perfeita. Que é perfeita para dentro, e para dentro de mim só Deus. Porque eu já me descobri.


...
























Qualquer verossimilhança, é apenas isso.


Dedicado à Alexandre Bittencourt.

Picolé de Chuchu ;

Fria e Indigesta !